Paris, como você nunca viu

Em greve!

Desde o início de dezembro passado chegavam notícias preocupantes. Por toda a França, mas sobretudo na capital, serviços básicos estavam ameaçados, consequência inevitável da paralisação da maior parte do transporte público, em resposta às mudanças na Previdência propostas pelo governo do presidente Emmanuel Macron.

E sabemos que quando os franceses falam que vão fazer greve, não estão brincando!

Minha viagem de fim de ano, no entanto, já estava marcada. Aliás, como você que me acompanha neste espaço já deve ter percebido, passar o Réveillon lá é quase uma tradição. Não ia desistir tão facilmente assim desse destino. 

Já havia atravessado outras greves francesas, inclusive uma em 2010 em que vivi uma das situações mais bizarras enquanto turista, quando um taxista, que o hotel reservou com 24 horas de antecedência, fugiu em disparada gritando apavorado “non, non, non” pela rue du Bourg Tibourg, ao saber que eu ia com minha família para a Gare du Nord, a estação de onde sai o Eurostar para Londres.

A solução foi, rapidamente: andar com as malas até uma estação da linha 4 do metrô, que leva à Gare du Nord, e embarcar, um a um, nos vagões que chegavam lotados em intervalos de mais de cinco minutos.

Uma estratégia apavorante quando você lembra que sua mãe está no grupo. Felizmente, tudo deu certo.

Nessa época, as redes sociais ainda não eram tão fortes, no entanto hoje, além das notícias, é possível também ver como as pessoas estão convivendo com os obstáculos que uma greve traz. E detectei um fenômeno curioso.

Além do mau humor dos próprios parisienses —justificado, pois a paralisação trouxe transtornos à rotina deles — notei que os brasileiros que visitavam a cidade neste fim de ano ensaiavam chiliques de contrariedade. E achei aquilo um pouco estranho.

Aos amigos que identifiquei no coro da ladainha de reclamações, muitos deles conhecidos apenas das próprias redes sociais, tentei responder com leveza, insistindo para que aproveitassem a cidade do mesmo jeito. Aliás, como eu esperava fazer logo mais.

Mas constrangedor mesmo eram viajantes tarimbados, jornalistas que admiro, e até escritores, desabafando rabugices na linha “acho que me arrependi de visitar Paris com essa greve”. 

Hum… Sério? Com passaportes tão carimbados, será que não daria pra aproveitar nem um pouco a cidade? Fui ver isso de perto.

E sabe o que encontrei? Uma Paris tão vibrante como sempre. Com alguns obstáculos, é verdade. Mas com infinitas razões para eu me sentir feliz, jamais arrependido, de estar lá. 

Como uma nova iluminação no monumento da praça da Bastilha.

Em volta dela, um certo caos, pois com a ausência do metrô —apenas as linhas 1 e 14, que são automatizadas, funcionavam— todo mundo saía de carro. 

Mas para evitar o trânsito, podíamos sempre caminhar na cidade talvez mais perfeita do mundo para um passeio.

O inverno, ao menos por enquanto, está longe de ser rigoroso, com temperaturas em torno dos 10°C.

Chove pouco e, quando os ventos ajudam, as nuvens vão embora e o céu ainda nos cobre com aquele azul obsceno.

Se as calçadas ficam cheias, os restaurantes estão vazios, com muitas pessoas desistindo de reservas feitas há semanas. Notícia não tão boa para os chefs, mas excelente para alguém (como eu) de apetite aventureiro: Vivant 2, Maison, Racines, Brutos, Buffet, Septime La Cave, mesas disputadíssimas me aguardavam sem grandes complicações.

Alguns museus trabalham com horários limitados, mas se o Palais de Tokyo não abre até meia-noite, visitar a incrível exposição “Future, Ancien, Fugitif” antes das 21h é uma alternativa bastante razoável. E o pintor Tolouse-Lautrec permanece inabalado, glorioso, no Grand Palais.

Sem falar nos tipos coloridos e maravilhosos que desfilam pelos boulevards nos dias de Fashion Week. A “boa e velha” Paris de sempre, viva, exuberante, sedutora. 

Em greve, é verdade. Mas nunca menos que adorável. 

E quem não souber aproveitá-la assim, da próxima vez, faça um favor pra todos nós e fique em casa…

Fonte: Folha de S.Paulo