Rooftops e piscinas de hotéis mostram um Rio de Janeiro visto ‘de cima’

O nada pode ser a coisa mais útil, ao contrário da inútil paisagem cantada por Tom Jobim. E o nada, ao mesmo tempo, é estarrecedor numa cidade que é tudo. O Rio de Janeiro, apesar da milícia, apesar do caos, apesar dos 40 graus incandescentes que às vezes assombram esse mar e essa areia, continua lindo, continua sendo o screen saver definidor de brasilidade, uma delícia, um escândalo.

Os altos e baixos, tão altos e tão baixos, destroçam o Brasil há tempos. O Rio já viveu incontáveis auges e amargou incontáveis crises horrendas. Mas tudo se perdoa, embora seja difícil a digestão. Não dá para entender tamanha pilhagem, mas, tudo bem, estamos falando aqui de hedonismo.

A cidade cartão-postal do país que tanto tempo habitou o imaginário cosmopolita como idílio tropical por excelência já viu dias melhores, e o serviço nem se fala. A coisa aqui está preta, como diria um Chico Buarque antes dos cancelamentos que grassam, e com muitíssima razão.

Quem deseja, no entanto, ver essa cidade do alto, como ela merece, comme il faut, diriam os antigos, ainda encontra no balneário à sombra do Corcovado uma série de hotéis que valem a viagem, embora pesem no bolso empobrecido do viajante com inflação e dólar e tudo mais nas alturas —a ver se um novo governo pode suavizar as contas.

O Fasano, no marco zero da Vieira Souto, em Ipanema, é imbatível. O melhor serviço, o melhor cuidado com o hóspede, uma gastronomia de ponta e um bar de primeiríssima. A vista do morro Dois Irmãos é tão alienígena como o purgatório da beleza e do caos.

Mas não é só de Ipanema que vive a tal cidade outrora maravilhosa, embora um hotel um tanto fora de forma, o Praia Ipanema, ainda ofereça uma experiência caseira na praia da garota mais famosa do Brasil. A vista é deslumbrante, o resto, da porta para dentro, nem tanto.

Mas, mesmo num dia nublado, a varanda debruçada sobre o mar é um refúgio para quem deseja só uma taça de vinho de frente para as ondas, aquele que traça novas rotas enquanto mergulha no dulçor do álcool.

Na praia vizinha, o Hilton de Copacabana, mesmo que disputado por multidões, tem um rooftop, como se convencionou agora chamar os terraços, mais aprazível. A piscina é boa, com borda infinita e vista para a pedra do Leme, e um serviço bem atencioso.

Os preços, como costuma acontecer no Rio, estão tão nas alturas como os 39 andares da torre do hotel. Mas a vista vale a pena. Dá até para sentir lá do alto, em plena primavera, que o inverno no Leblon pode ser quase glacial, embora saibamos que Adriana Calcanhotto talvez quisesse só uma rima boa e não uma previsão meteorológica muito precisa.

Mais para a zona sul número dois, como demarcaram os corretores imobiliários, o Yoo2, na praia de Botafogo, tem muito potencial. A vista do Pão de Açúcar, com os barquinhos a vela boiando na praia menos convidativa ao banho de mar, é seu maior atrativo.

O bar, no entanto, é uma tristeza —o preço está lá no 17º andar, a cobertura, e o serviço, no subsolo. A piscina também deixa a desejar, com vista para o bairro e não para a paisagem mais emblemática do Rio.

Esqueçamos, no entanto, os clássicos. O Rio dos aventureiros, ou para aqueles com menos paciência e mais vontade de sossego, está logo ali. O nome é um palavrão. É o tal de MGallery, que poderia ser qualquer negócio, mas o casarão no alto de Santa Teresa é um espetáculo à parte.

A piscina tem vista panorâmica para o centro da cidade, a Lapa e a Glória em todo o esplendor.

O clima é de paz absoluta, pouca gente, pouco barulho. Vale aproveitar a proximidade com o Cosme Velho e a estonteante Casa Roberto Marinho para absorver um pouco de cultura hoje tão na ordem do dia depois de tanta barbárie. Subir e descer o bairro é complicado, mas vale a pena.

Mais adiante, uma parada zero charmosa, porém muito prática, é o Novotel Porto Atlântico, no Santo Cristo. Do alto de seu rooftop protegido por estranhos vidros fumê na cidade mais cinematográfica do mundo, há uma piscininha. Não vale perder muito tempo com ela, mas está na borda da ponte Rio-Niterói.

Quem deseja cruzar a Guanabara para ver o velho Museu de Arte Contemporânea, o disco voador de Niemeyer na cidade vizinha, está no lugar certo.

Fonte: Folha de S.Paulo