Visitar de carro a Cornualha vale para conhecer a Inglaterra ‘real’

Viajar de carro pela Inglaterra não é uma opção lá muito considerada pelos turistas brasileiros que visitam a terra da rainha. Isso acontece porque, além da enorme oferta de atrações em Londres, até mesmo motoristas experientes sentem um certo arrepio quando ouvem falar em dirigir na “mão inglesa” —quando os veículos circulam pelo lado esquerdo e ultrapassam pelo direito.

Na prática, dirigir pelas estradas inglesas não é um pesadelo tão grande quanto parece —em meia hora ao volante já dá para se acostumar.

E sim, vale a pena conhecer o interior que, se por um lado, não tem o lado cosmopolita de Londres, por outro oferece um mergulho na história, com paisagens de impactante beleza e uma agradável imersão nos costumes da chamada Inglaterra real, que, aqui, pouco tem a ver com a rainha ela mesma.

A dica é pegar o carro logo no aeroporto de Heathrow e dali seguir em direção ao sudoeste da península para explorar em cerca de uma semana o condado de Cornwell (Cornualha), agendando Londres para o final da viagem —lá o carro definitivamente deixa de ser uma comodidade para se transformar em um verdadeiro estorvo.

Ao motorista ainda ressabiado, vale dizer que, em geral, as estradas inglesas são seguras, bem sinalizadas e, mesmo as mais interioranas e secundárias, apresentam uma boa pavimentação, apesar de às vezes parecerem estreitas demais para dois veículos ao mesmo tempo.

Em relação ao clima, o inverno não é extremamente rigoroso, variando entre 4°C e 10°C, mas as chuvas são frequentes. A partir de março e até junho, o tempo melhora, ficando mais firme e ameno.

Nas férias de julho e agosto, a temperatura pode chegar aos 30°C, mas aí o problema é a lotação de turistas ingleses, que tem o litoral da Cornualha como um destino tradicional no calor.

A partir do aeroporto, a primeira parada é Salisbury, a cerca de 120 km. Cidade medieval, abriga uma catedral imponente, um centro compacto e bem preservado com boas opções de restaurantes, além do misterioso círculo de pedras de Stonehenge.

Erguido entre 3.000 a.C. e 1.600 a.C., é considerado sagrado e místico para alguns, mas nem tanto assim para outros. De qualquer forma, já que se está por ali, vale conferir.

Seguindo na linha histórica, o próximo destino é Tintagel, a 240 km a sudoeste. Saia um pouco da rodovia principal e siga pelas estradas secundárias, passando por fazendas e vilas perdidas no tempo com seus pubs mais que centenários.

Em Tintagel, um parque aberto à visitação abriga as ruínas de um castelo no alto de um penhasco onde supostamente teria nascido o lendário rei Arthur. Também estão por ali as cavernas onde o mago Merlin, quem sabe, preparava suas poções mágicas.

Depois da imersão na história do mais ilustre filho local, dê uma paradinha na Cornish Bakery para provar o tradicional cornish pasty, uma empanada assada recheada com carne e batatas, que lembra as similares chilenas ou argentinas, só que no tamanho GG.

Se a fome persistir, siga para um almoço em Padstow, a apenas 40 km de Tintagel. Ao longo do pequeno porto cheio de pequenos barcos de pesca, espalham-se diversas lojinhas, sorveterias, docerias e charmosos restaurantes especializados em frutos do mar que, dizem, são pescados ali mesmo.

Rock, sol e cerveja

Continuando 30 km rumo ao sul, está Newquay, típica cidade de veraneio com 20 mil habitantes, opções de estadia a bons preços e uma atmosfera praiana que atrai surfistas e famílias de turistas britânicos no alto verão, ainda que a água jamais seja algo além de muito fria.

Da encosta de Fistral Beach, é possível acompanhar, sem sessão de palmas, um belo por do sol num dos bares encravados na encosta.

Para acompanhar, boas cervejas artesanais da região, assim como vinhos franceses e italianos a preços razoáveis (o que infelizmente pode mudar nesses novos tempos pós-Brexit).

A comida passa longe da sofisticação, mas, como estamos em clima de praia, uma pizza bem feita sempre ganha ares de banquete. Tudo embalado ao som do bom e velho rock and roll, trilha sonora oficial da viagem.

Uma esticada de 50 km ao sul leva até St. Ives, cidade portuária com 11 mil habitantes erguida numa estreita península e conhecida por abrigar praias de areia branca e ondas perfeitas, listadas entre as melhores da Inglaterra.

Com ares de sofisticação artística, reúne várias galerias de arte, entre elas um braço da Tate Gallery, com trabalhos de artistas ingleses contemporâneos.

O porto tem uma boa variedade de cafés e restaurantes, que fazem de St. Ives uma excelente opção de parada para uma providencial refeição. A parte baixa e mais antiga, conhecida como Down-a-long, fica na crista de terra que separa a ilha do resto da cidade.

Em meio a ruelas com sugestivos nomes como Salubrious Place, Teetotal Street e The Digey, encontram-se antigas casinhas brancas que hoje servem ao comércio local e, claro, mais galerias. A ideia é perder (ou ganhar) tempo zanzando por ali numa verdadeira viagem no tempo.

A 45 minutos de St. Ives, cruzando uma das pontas da Cornualha até Porthcurno e seguindo por uma estrada bem, mas bem estreita, chega-se a um dos mais impressionantes teatros ao ar livre do mundo.

Com origens que remontam os anos 1920, e incrustado no penhasco acima de um mar de verde esmeralda profundo, o Minack Theatre mantém uma programação regular que vale ser checada antes da visita. Se a data do passeio não coincidir o com nenhuma apresentação, ainda assim é possível (e imperdível) conferir o local, de onde se tem uma vista impressionante da arquitetura do próprio teatro, das praias e da imensidão do oceano.

Já no caminho de volta, deixando o litoral e subindo por 95 km, chega-se a Lostwithiel. Localizada às margens do tranquilo rio Fowey, o vilarejo tem cerca de 3.000 habitantes e um clima acolhedor, com um bom pub, pequenos restaurantes familiares, padaria, açougue, uma loja de vestidos de noiva, outra de artigos fotográficos, e ainda mais uma com quinquilharias antigas.

Não há nenhuma atração propriamente incrível em Lostwithiel, o que faz os locais perguntarem por que raios algum turista desavisado decidiu parar naquele fim de mundo.

Pode ser o astral, o clima, a curiosidade, ou apenas uma simples parada para descanso após um interessante giro pela Cornualha antes de encarar os quase 400 km de volta até Londres, vai saber.

Mas, se não tiver uma resposta pronta, não se preocupe. Sempre pode dizer que está ali especialmente para acompanhar um dos eventos mais importantes de todo o condado: a tradicional corrida de patinhos de borracha.

Fonte: Folha de S.Paulo