
Peço desculpas pela provável confusão das minhas palavras. Escrevo sob o enorme impacto, ainda muito fresco, da notícia da partida do Silvio Lancellotti. Um amigo que não cheguei a conhecer pessoalmente –e me sinto péssimo por não ter feito mais para possibilitar nosso encontro.
O jornalista Silvio era um caso raríssimo de talento polivalente. Manjava como ninguém de futebol italiano. Escreveu romances policiais sobre a Máfia. Era um putza dum cozinheiro. E comilão. Juntava todos esses talentos para falar de comida, de Itália e de comida italiana na imprensa escrita e na televisão.
Como eu nunca gostei demais de futebol, conheci o Silvio nas noites de sábado, quando eu deveria ter 12 ou 13 anos e ele apresentava um programa de culinária bem tarde, mas não tão tarde quanto o Goulart de Andrade que viria depois.
Volto a pedir desculpas porque ainda não consegui achar o nome do programa. Acho que era “Santa Ceia” e que passava no canal 11. Talvez no 7. Ou será que já era no 13? Só lembro muito bem que a abertura tinha o tema musical que Nino Rota compôs para “Amarcord”, de Fellini.
Silvio, com seu sotaque italianado dos paulistanos meio folclóricos –embora fosse paulista de São Vicente, no litoral– estava sempre atrás de uma panela gigante de molho de tomate ou de um forno de pizzaria. O rosto rechonchudo, bonachão e avermelhado suando com as brasas e a luz da TV.
Eu, que já havia jantado, ficava de novo com fome, ia até a cozinha e me arriscava a preparar algo para comer.
No dia seguinte, domingo, dava um jeito de arrastar meus pais até algum dos lugares que o Silvio havia mostrado no programa. Graças ao Silvio, descobri a pizzaria Babbo Giovanni, que era o que havia nos anos 1980 e tinha um sabor batizado em homenagem ao signore Lancellotti. Não vou me arriscar a chutar os ingredientes da cobertura.
O cara era minha referência. Minha inspiração. Tomei um baita susto quando, uns dois anos atrás, o mestre me escreveu para dizer que era meu leitor. Trocamos números e viramos penpals, amigos por correspondência.
Eu tinha um podcast e queria entrevistá-lo sobre a história da pizza paulistana e os restaurantes que se foram junto com a garoa. Ele declinou porque estava com a saúde frágil. Em especial a voz, que insistia em não sair.
Um tempo mais tarde, me escreveu dizendo que a voz estava melhor e que poderia gravar. Não rolou. O podcast estava (e ainda está) interrompido.
Nunca visitei o Silvio e seus gatos.
Peço minhas últimas desculpas ao mestre Silvio, por lhe dizer tudo isto tarde demais.
Peço minhas últimas desculpas (de hoje) a você que me lê, por enfiar-lhe mais um “eubituário” pela córnea. É que não existiria Cozinha Bruta se não houvesse Silvio Lancellotti me empurrando para a cozinha nas noites solitárias de sábado.
Sem que é bem mais cool citar o Bourdain como referência, mas o maestro Silvio veio bem antes. Desculpe aí, Tony.
Putabraços, meu amigo Silvio. Vê se agora descansa.
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Fonte: Folha de S.Paulo