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Campanha Gaúcha conquista enoturista pela sua história

Quem passa pelos vinhedos da Estância Paraizo, em Bagé, na Campanha Gaúcha, vê no campo ao lado homens, vestidos de bombacha, botas, chapéu e lenço no pescoço, sobre cavalos tocando o gado. A Campanha é a terra dos gaúchos propriamente ditos, os boiadeiros dos pampas. Ali o enoturista mergulha nessa cultura e na história da formação do Brasil.

A estância foi fundada em 1790 pelo Brigadeiro Camilo Mercio, na região na época conhecida como Campos Neutrais. Um tratado entre Portugal e Espanha havia deixado-a de fora dos limites das duas colônias. Portugal, no entanto, distribuiu sesmarias por ali e títulos militares para homens de origem portuguesa, como Camilo, e foi expandindo suas fronteiras.

Descendentes de Camilo, os atuais proprietários da estância até hoje mexem com gado. Desde o ano 2000, contudo, também produzem vinho e recebem turistas. Há um tour a uma capela de 1916 que custa R$ 75. Além disso, o turista pode fazer uma degustação no galpão açoriano na entrada da fazenda por R$ 85 ou pegar uma cesta de piquenique (R$ 190, para duas ou três pessoas) e uma garrafa de vinho.

A Quinta do Seival, do Grupo Miolo, em Candiota, também tem uma história antiga. Fica nas terras onde, em 1836, aconteceu a Batalha do Seival da Revolução Farroupilha, também conhecida como Guerra dos Farrapos. Ali as tropas de Bento Gonçalves puseram para correr a guarda imperial. Cerca de 50 anos depois, ali funcionou a primeira vinícola registrada do Brasil. Chamava-se a J.Marimon & filhos.

A Miolo comprou a propriedade no ano 2000. São 200 hectares de vinhedos, de onde saem desde o básico Miolo Seleção até o Sesmarias, um vinho que custa R$ 1.238,90, passando por vinhos de ótima qualidade e de custo razoável, como o Quinta do Seival Castas Portuguesas (R$ 157,90).

A visita à vinícola é gratuita e acontece de segunda à sexta, das 8h às 11h30 e das 13h30 às 16h30. Aos sábados, domingos e feriados, é preciso agendar e eles só aceitam grupos acima de 15 pessoas. No início do ano, a vinícola inaugurou uma nova sala de degustações. Degustação é paga. O preço varia de acordo com os vinhos degustados.

Em Santana do Livramento, o grupo tem a Almadén. Foi fundada em 1973 por californianos depois de especialistas da Universidade de Davis apontarem a Campanha Gaúcha como o melhor terroir para a plantação de uvas viníferas no Brasil. Em 2009, foi comprada pela Miolo.

O local tem 1.200 hectares, 450 deles com vinhedos. Uma parte deles da época dos americanos. É dali, por exemplo, que vem o Tannat Vinhas (R$ 238,90). Vem também vinhos bem decentes da marca Almadén por preço muito bom: R$ 35,90.

Prove o marselan e o tempranillo, por exemplo. Há uma loja duty free na vinícola. O passeio tradicional custa R$ 50 e dá direito a uma degustação de quatro vinhos. O passeio IP da Campanha Gaúcha custa R$ 100 e dá direito a degustar quatro rótulos que têm a indicação de procedência Campanha Gaúcha, vinhos de uma gama mais alta. Ambos incluem visita a um pequeno museu e visita aos vinhedos e à cantina.

Um dos pontos altos da visita é o deck com vista para os vinhedos e para o Cerro Paloma, uma meseta que se destaca no horizonte. Há algumas delas por essa região da fronteira. No passeio do Trem do Pampa, que vai de Santana do Livramento até a vinícola, o Cerro paloma também pode ser visto. O passeio, que inclui serviço de vinho e suco de uva e show de música típica, custa R$ 159.

Na vinícola Cordilheira de Sant’Ana, também de Santana do Livramento , o cerro está próximo, no fundo dos vinhedos, há um balanço que cria a sensação de voar sobre os vinhedos. Com 24 hectares de vinhas, é uma vinícola relativamente pequena com atendimento intimista. O visitante pode escolher os vinhos que vai degustar. Pode pedir uma tábua de frios e queijos e se sentar no gramado. Ou pedir um escondidinho (para isso é melhor reservar).

Em Dom Pedrito, a Vinícola Guatambu Estância do Vinho, com apenas 22 hectares de uva, é uma vinícola pequena também. A empresa da família Potter, no entanto, é uma potência do agronegócio do Rio Grande do Sul. Com cinco fazendas na região, eles são uma referência na pecuária (5.000 cabeças) e na produção de grãos.

Em 2003, já então uma figura eminente do agronegócio, o proprietário da Estância Valter Potter aceitou plantar meio hectar de uvas para agradar a filha Gabriela Potter, que tinha acabado de se formar em agronomia. Hoje a vinícola, com seus meros 22 hectares, representa uma boa porcentagem do faturamento da empresa. “Além disso, gera mais empregos”, afirma Gabriela.

A Guatambu mantém uma sede bonita na beira da BR-293. Nesse ponto, além da cantina, eles têm 1,5 hectar de vinhedos, uma sala de degustações preparada para uma experiência com aromas, um restaurante e um jardim lindo. Por enquanto, o restaurante só abre para eventos especiais.

A Campanha continua sendo uma região afastada, de difícil acesso. O aeroporto mais próximo com voos regulares no momento é o de Pelotas. O que significa mais duas a quatro horas de carro. Há uma promessa de voos diretos para Rivera, no Uruguai, que é grudada em Santana do Livramento. Um acordo dos governos dos dois países transformou o aeroporto em binacional, ou seja, brasileiros não passam por trâmites de voos internacionais.

O turismo representa uma parcela significativa dos rendimentos da Guatambu. Uma das atividades que mais atrai os turistas é o Dia Épico (R$ 500 por pessoa), um programa de dia inteiro que inclui visitas e explicações aos vinhedos e à cantina, degustação de vinhos de topo de gama, como o Épico 8, um corte de tannat, cabernet sauvignon, tempranillo e merlot, que ganhou tudo quanto é medalha e custa R$ 417,64, e um almoço com churrasco, como gaúcho gosta. Se Valter cruzar o salão vestindo bombacha, boina e botas, não pense que ele está fantasiado para a festa.

A jornalista viajou a convite da Agência ConceitoCom Brasil

Fonte: Folha de S.Paulo

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