A Copa do Mundo de 2026 começou sob forte clima de tensão diplomática e descontentamento geral devido às rígidas políticas migratórias impostas pelos Estados Unidos, que sediam o torneio global juntamente com o México e o Canadá. Em entrevista concedida ao portal Brasil de Fato, em parceria com a Agência Pública, a advogada internacional e especialista em direito migratório Marta Mitico Valente analisou os bastidores jurídicos e políticos que transformaram os primeiros dias do campeonato em um cenário de constrangimentos diplomáticos e exclusão.
Do ponto de vista estritamente jurídico, Marta Valente esclarece que as restrições e proibições de entrada impostas pelos Estados Unidos a determinadas nacionalidades não infringem o Direito Internacional ou o Direito de Migração, pois prevalece o princípio da soberania nacional do país-sede. No entanto, a advogada aponta uma grave negligência da Fifa e das comissões técnicas das seleções. Segundo ela, a Federação Internacional falhou ao não negociar antecipadamente regras e vistos especiais de imigração para o evento, sabendo do histórico restritivo norte-americano, concluindo que o torneio não deveria ser realizado no país sob tais condições.
A falta de mediação resultou em episódios polêmicos logo na semana de abertura, como o caso de Omar Artan, somali considerado o melhor árbitro do continente africano, que teve seu visto negado e foi cortado do torneio ao desembarcar em Miami, já que a Somália integra uma lista de 38 nações com proibição severa de viagem decretada por Washington. Além disso, atletas e profissionais do Irã, Iraque, Uzbequistão e Senegal relataram vistorias exaustivas e atrasos burocráticos, destacando-se o caso do atacante iraquiano Aymen Hussein, que ficou detido por sete horas para interrogatório antes de ser liberado para entrar no país.
A especialista também critica a postura dividida do esporte, apontando que, enquanto a Rússia segue banida de competições oficiais da Fifa desde 2022 devido à guerra na Ucrânia, as ações mais recentes dos Estados Unidos e de Israel em territórios como o Irã, Palestina e Líbano não sofrem qualquer tipo de sanção ou retaliação parecida por parte da entidade esportiva.
Para além do futebol, Valente destaca que o fechamento de fronteiras imposto pela gestão de Donald Trump gera prejuízos ao próprio mercado americano. Setores de tecnologia, turismo, negócios e educação sofrem com o isolamento global pela dificuldade de atração de talentos estrangeiros. Ela também teceu duras críticas à atuação da polícia migratória dos Estados Unidos, a ICE, classificando os episódios de separação familiar e abusos contra imigrantes como um arbítrio de soberania. Em suma, a postura adotada transforma o maior evento de congraçamento cultural do planeta em um torneio fragmentado e marcado por retaliações, onde a omissão da Fifa permitiu que a geopolítica obscurecesse a festa do esporte.
Fonte: Entrevista original “Copa 2026: Fifa poderia ter evitado deportação e constrangimento de seleções, diz advogada”, publicada em 11 de junho de 2026 pelo portal Brasil de Fato em coprodução com a Agência Pública, com texto assinado pelo jornalista Filipe Prado.
Fonte: Brazilian Press