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Relatos de uma ‘canicule’ severa em Paris

Quando fui morar em Nova York, correspondente júnior desta Folha, em 1989, Paulo Francis, então correspondente sênior e tutor informal dos promissores talentos do jornal que lá desembarcavam, me alertou: “Prepare-se para o pior verão da sua vida”.

Cheguei no auge do inverno e o recado de Francis me pareceu improvável. “Sou brasileiro”, respondi gaiato. Ele me ignorou: “A sensação aqui em julho é a de que você anda na rua e tem uma vaca no seu pescoço soltando um bafo”.

Lembrei-me dessa história assim que cheguei domingo em Paris. Já pela manhã da última segunda-feira, era como se a vaca baforenta tivesse desembarcado comigo.

Nunca havia experimentado um calor tão intenso na cidade. Em 2024, por exemplo, a cidade derretia em meio aos Jogos Olímpicos, mas a energia das competições nos trazia uma sensação refrescante.

Sim, sofri um leve “coup de chaleur” (até “insolação” fica mais elegante em francês!) após torrar na plateia do torneio de tênis em Roland Garros. Mas a temperatura era um inconveniente menor quando você presenciava um vôlei de praia à sombra da Torre Eiffel.

Neste verão de 2026, no entanto, como diria alguém finalizando um adereço da sua escola na Cidade do Samba em pleno fevereiro carioca, “o bagulho é doido”. E quente.

Admito que essa “canicule”, como os franceses chamam uma onda forte de calor, me faz pensar duas vezes antes de sair às ruas de Paris. E olha que altas temperaturas nunca foram um obstáculo para este viajante.

A última vez que me lembrei da vaca nova-iorquina foi em Bancoc. Talvez porque lá eu estava em pleno “songkran”, uma espécie de ano-novo tailandês.

Quando você sai na rua para se molhar, o calor não é mais tão desestimulante.

Para purificar o ano que começa, os tailandeses de fato jogam baldes de água em qualquer pessoa na rua, quando não te apontam mangueiras jorrantes. Aquela é uma dádiva que refresca.

Quando estive no Mali, depois da carinhosa recepção que tive do secretário de Cultura de Tombuctu —”Bem-vindo ao fim do mundo”, anunciou-me—, o Sol castigou fortemente todos os dias da minha reportagem à beira do Saara.

Já em Nova Déli, capital indiana, onde mais de 25 milhões de pessoas circulam sob uma estufa natural e poluída, respirar é quase um esporte radical. O que nunca me impediu de me encantar com a cidade.

Até mesmo em Teresina, que eu brinco que é das poucas cidades onde a noite parece mais quente que o dia, a umidade dos dois rios que definem a capital piauiense multiplica a sensação de calor, mas não nos impede de curti-la.

Já atravessei ruas mais quentes num agosto em Istambul do que os banhos turcos que lá frequentava diariamente.

Sob um céu azul nos templos de Angkor, no Camboja, quase me senti mais castigado do que encantado.

E um Réveillon em Buenos Aires me fez jurar nunca mais voltar à cidade que tanto amo nesta época do ano.

Mesmo em Nova York, vários verões depois do recado da vaca, enfrentei tardes sufocantes, sempre sabendo que, como um oásis urbano, qualquer loja em que eu entrasse me resfriaria como um lago islandês em dezembro.

Agora, esse verão de 2026 em Paris, onde ar-condicionado é, quando muito, uma miragem e o astral não anda muito bom depois da eliminação da França na Copa… Conseguirei aproveitar? Salvo outro “coup de chaleur” severo, conto tudo no nosso próximo encontro.

Fonte: Folha de S.Paulo

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