
Toronto, uma “mini Nova York com um dólar que não pesa no bolso” e Montreal, a “América que fala francês”. Se essas frases marqueteiras vêm à sua cabeça quando alguém pronuncia a palavra Canadá, é hora de mudar a chave —e talvez o destino de desembarque.
Com a segunda maior extensão territorial do mundo, atrás apenas da Rússia, seria natural que houvesse muito mais a conhecer no “51º estado”, como diria o presidente vizinho. E mesmo a milhares de quilômetros de distância de Toronto e Montreal, as principais portas de entrada do país para brasileiros, Vancouver, a “capital do oeste”, supera todas as expectativas.
Mas isso é só o começo. Tanto a província da Colúmbia Britânica, que tem Vancouver como sua maior cidade, e Alberta, a província vizinha, que ironicamente cogita se emancipar do Canadá, são gemas da natureza selvagem, com o perdão do miserável clichê.
Por essas províncias, passa a sessão setentrional das montanhas rochosas, as famosas Montanhas Rochosas, que seguem a sul, pelos Estados Unidos, criando cenários que impelem o turista, ao menos aquele que não tem nevados em seu quintal, a não dar folga para a memória de seu celular.
Em cidades como Jasper, Lake Louise e principalmente Banff, a cadeia de montanhas com cones brancos é onipresente, circundando áreas urbanas e estradas. A sensação de maravilhamento para quem não está acostumado a essa composição é permanente.
Banff, cidade de 12 mil habitantes, é o suprassumo da coisa toda. Em qualquer quarteirão da área central, ou mesmo da Tunnel Mountain Road, rua com jeito de estrada que leva para áreas mais afastadas do centro urbano, parece que é possível pegar os topos nevados das montanhas com a mão.
O rio Bow, mais importante da região e que também banha a cidade, é devidamente reverenciado ali, com lindos parques e trilhas às suas margens.
A cidade de Banff é espetacular, mas os cenários naturais se confundem com os da vizinha Lake Louise. Muda, contudo, a geografia humana e a conformação hoteleira em Lake Louise, que é cheia de resortões, cortesia da estação de esqui local. Mas até mesmo quem não tem qualquer intimidade com esquis deve contemplar o lago de uma das saídas do Fairmont Chateau.
A extremidade lá longe do Louise, que não é possível divisar, mas que se insinua por entre mais um conjunto de nevados, deve ter inspirado o arquiteto que criou a primeira piscina de borda infinita do mundo.
E há ainda Jasper, que também dá nome a um dos parques do contínuo das montanhas rochosas do Canadá. Com sua própria coleção de lagos —se tiver de escolher um, fique com o Pyramid, hit das fotos de noivos às vésperas de seus casamentos—, a cidade cultua o “grizzly bear”. Este que é o grande e solitário urso-pardo da região, pôde ser visto por este repórter a partir do sidecar de uma Harley Davidson, num tour pilotado pelo simpaticíssimo Robert Logan, da Jasper Motorcycle Tours. Ver o “grizzly bear” é como “ticar” de uma só vez os Big Five na África.
Em Jasper é impossível não se impressionar com a extensão dos danos causados pelo grande incêndio florestal do verão de 2024, que obrigou todos os 25 mil moradores da cidade a deixar o lugar. As marcas estão por todo o lado, facilmente visíveis no desbaste das matas de coníferas e em algumas ruínas na área urbana.
A estrada 93, que liga Jasper a Banff, passando por Lake Louise, é considerada, com razão, uma das mais cênicas do mundo.
Também conhecida como Icefields Parkway, a estrada tem ainda diversos atrativos às suas margens, como os glaciares da Columbia Icefield, em que o viajante caminha sobre o gelo após um pequeno trajeto feito em veículos apropriados. A bandeira do Canadá ali fincada, um dos raríssimos pontos de cor a, digamos, quebrar o gelo, e interferir sutilmente na natureza, é um hit.
Com o desempenho histórico da seleção canadense na Copa, o discreto pavilhão tem tudo para se tornar um pequeno local de culto.
A partir de dezembro, também será possível chegar ao país por Calgary, que fica a 130 km de Banff, e a mil quilômetros de Vancouver. A cidade deve ganhar voos diretos da WestJet para São Paulo.
Turistas podem cruzar o Canadá pelos trilhos, em viagens custo-benefício ou bem mais luxuosas
Deve causar hoje certa estranheza a informação de que um ex-político gaúcho viajou 1.500 quilômetros de trem, de Porto Alegre ao Rio, para dar um golpe de estado e assumir a presidência na então capital do Brasil. E se hoje golpes nos soam familiares, viajar de trem, nem tanto.
Mas eles já conectaram bastante bem as cidades e os ermos de toda a América do Sul. Por isso, sobrevêm admiração e um quê de tristeza quando ficamos a saber que trens levam passageiros para (quase) toda a extensão territorial do Canadá.
A ferrovia foi efetivamente responsável pelo desenvolvimento do país, e diversas cidades têm seus centros históricos fincados ao lado das antigas estações, caso de Calgary. Viajei de Vancouver a Jasper nos trilhos da Via Rail Canada, mas a composição poderia ter me deixado bem mais longe, em Toronto, por exemplo, num trajeto de 4.400 quilômetros.
Até Jasper, foram 847 km e 20 horas de uma viagem bastante confortável na cabine “Sleeper Plus”, sem luxo algum mas com muita praticidade, com cama reclinável e peças de banheiro. O trem tem ainda vagão-restaurante e um muito bacana carro sem teto, o Skyline, com direito a poltronas reclináveis para melhor aproveitar o show celeste.
A Via opera num “range” democrático, com tarifas também de custo-benefício. Numa simulação para o fim de agosto, a viagem Vancouver-Toronto na econômica sai desde US$ 770. Para uma experiência mais luxuriante, que evoque ainda que remotamente a do Blue Train, o venerável serviço sul-africano que cruza o país de Pretória a Cape Town, talvez seja o caso de cacifar a Prestige Class ou partir para companhias dedicadas, como a Royal Canadian Pacific.
O jornalista viajou a convite de Air Canada, VIA Rail Canada, Tourism Calgary e Extraordinário Canadá
Fonte: Folha de S.Paulo