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‘Não tenho notícias dele há quase cinco anos’: as mães que procuram seus filhos no sistema prisional do regime de exceção de Bukele em El Salvador

Em foto de 2024, Marcela Alvarado olha para a câmera, com os olhos marejados de lágrimas e camiseta vermelha, segurando um retrato do seu filho detido no Cecot de El Salvador, José Duval Mata Alvarado.

Crédito, Natalia Alberto

Legenda da foto, Marcela Alvarado não tem notícias do seu filho, José Duval Mata Alvarado, desde que ele foi detido, em abril de 2022

    • Author, Leire Ventas
    • Role, Correspondente da BBC News Mundo em Los Angeles (EUA)
  • Published

  • Tempo de leitura: 11 min

“Desde que o capturaram, não o vi mais. Não sei se ele vive ou não”, lamenta-se Marcela Alvarado.

Seu filho, José Duval Mata Alvarado, foi detido por vários soldados no dia 18 de abril de 2022, na comunidade rural de La Noria, em Jiquilisco (sudeste do país). Ele estava voltando para casa após um dia de trabalho como motorista de trator.

Apesar das suas súplicas, garantindo que era inocente, ele foi levado e acusado de “associações ilícitas”, da mesma forma que a maioria dos detidos com base no regime de exceção que, na época, havia acabado de entrar em vigor no país.

O decreto de emergência suspende uma série de direitos constitucionais e é o principal instrumento da política de segurança do governo do presidente salvadorenho, Nayib Bukele.

Com esta medida, o mandatário conseguiu desarticular as poderosas gangues que passaram décadas aterrorizando o país.

Temporário por definição, o decreto vem sendo prorrogado todos os meses há mais de quatro anos, gerando críticas dos grupos de direitos humanos locais e internacionais. Eles defendem que o estado de exceção em El Salvador gerou detenções arbitrárias e sem ordem judicial.

Mulheres seguram fotos de familiares detidos durante o regime de exceção em El Salvador e cartazes com os dizeres 'Mães pela Liberdade', no centro da capital do país, San Salvador

Crédito, Gentileza Mães pela Liberdade

Legenda da foto, O grupo Mães pela Liberdade foi criado espontaneamente pelas mulheres que se encontravam na porta das prisões e dos tribunais, perguntando pelos seus familiares

Desde o dia em que seu filho foi levado, Alvarado se pergunta como ele estará e se realmente permanece no local onde lhe dizem que ele está preso.

Ao longo deste período, dois juízes ordenaram a imediata libertação de Mata. A BBC News Mundo (o serviço em espanhol da BBC) teve acesso às decisões judiciais.

Mas, sempre que sua mãe comparece à Promotoria ou deixa nas mãos do funcionário de plantão na penitenciária um “pacote” com alimentos básicos e artigos de higiene, eles garantem que ele continua atrás das grades da infame megaprisão conhecida como Centro de Confinamento do Terrorismo (Cecot).

Alvarado leva esta dúvida consigo em cada visita. Sua peregrinação já dura quase cinco anos e também a levou a delegacias, tribunais e outros centros de detenção. Mas ela tem pelo menos uma certeza.

“Em todos esses lugares, sempre encontro mães que, como eu, perguntam pelos seus filhos”, ela conta.

“Mães, irmãs, cunhadas, tias, muitas delas muito idosas, anciãs, de todas as idades, na verdade. Mas, quase sempre, somente mulheres.”

De tanto se encontrarem, elas foram se unindo espontaneamente, primeiro na região do Baixo Lempa, no sul de El Salvador.

Os grupos se estenderam pelo território do país para se apoiarem mutuamente, compartilhar informações, conselhos e gastos com deslocamentos e acompanharem umas às outras na desgraça e na luta para seguir adiante.

Hoje, elas constituem um coletivo formado por centenas de mulheres, que recebeu o nome de Mulheres pela Liberdade.

O grupo pretende combater o silêncio institucional e o esquecimento, reivindicando o direito à informação, às visitas familiares e a julgamentos justos e individuais para os seus familiares.

A dor comum

“Todas nós estamos passando por uma situação muito parecida e, quando nos reunimos, sentimos que a dor não é mais de uma só, mas do grupo”, explica Liliana Urías.

“Pelo menos a mim, o grupo tem ajudado a seguir adiante, pois antes não conseguia tocar no assunto, nem podia falar do meu filho preso”, conta ela à BBC da sua casa em Puerto El Triunfo, no departamento salvadorenho de Usulután (sul do país), onde nasceu o coletivo.

Ela viu seu filho Merlon Urías pela última vez em 30 de março de 2022, três dias depois que a Assembleia Legislativa de El Salvador deu luz verde para o regime de exceção promovido por Bukele. Ele trabalhava na produção de cana-de-açúcar, tinha 19 anos e uma filha de um ano de idade.

“Foi muito difícil vê-lo ajoelhado, com as mãos nas costas”, relembra ela.

“Só consegui oferecer palavras de consolo, dizendo: ‘Não se preocupe, meu filho. Você sabe que não pertence a nada. Ore para Deus e você vai sair desta.'”

“A partir dali, entrei em depressão, fiquei doente”, conta a mãe. “Eu não comia, aquilo só passava chorando.”

Tudo se agravou quando, um mês e seis dias depois, seu marido, Israel Reyes, teve o mesmo destino. Fuzileiro naval aposentado, ele fornecia transporte particular com sua caminhonete, “velhinha, mas das boas”, segundo ela.

Liliana Urías olha para a câmera, segurando um cartaz com as fotos do seu marido, Israel Reyes (esq.), e seu filho, Merlon Urías

Crédito, Gentileza Liliana Urías

Legenda da foto, Há mais de quatro anos, Liliana Urías não vê seu marido, Israel Reyes (na foto da esquerda, no cartaz) e seu filho, Merlon Urías

Da mesma forma que Alvarado, Urías começou a bater em portas, fazer perguntas em primeiro lugar e, depois, tentar demonstrar, com certidões de antecedentes criminais e outros documentos, que seus familiares detidos não mantinham relações com as organizações criminosas que, um dia, levaram El Salvador à liderança do ranking dos países com maior número de homicídios do planeta.

Atualmente, ela continua visitando todos os meses dois centros penitenciários: La Esperanza, mais conhecido como Mariona, onde foi informada que seu filho está detido; e o de Izalco, onde está preso seu marido.

“Às vezes, o guarda da entrada me diz que um ou outro foi trocado de cela e, com isso, fico um pouco mais tranquila”, ela conta. Urías se agarra às poucas notícias que teve de ambos desde 2022.

“É como ocorreu quando transferiram Merlon de penitenciária. Ele está se movendo dentro do sistema. Por isso, sei que ele continua ali.”

Urías afirma que estas informações são mais do que muitas mulheres conseguem obter.

Existem mães que reconheceram seus filhos em vídeos oficiais ou em fotografias nas redes sociais. Foi assim que elas ficaram sabendo de transferências entre penitenciárias ou de passagens por hospitais.

Fotografia de Liliana Urías, vestida de vermelho, abraçada ao seu marido, Israel Reyes, e seu filho, Merlon Urías

Crédito, Gentileza Liliana Urías

Legenda da foto, Esta é a única foto de Liliana Urías com seu marido, Israel Reyes, e seu filho, Merlon Urías

91 mil detidos e julgamentos em massa

Em Mariona e Izalco, o filho e o marido de Urías aguardam uma terceira audiência, de condenação.

Organizações nacionais e internacionais de direitos humanos rejeitam estes processos, que chegam a reunir 900 acusados. Elas destacam que os julgamentos coletivos ameaçam o direito de acesso à justiça e à defesa, além do processo devido, garantidos em tratados internacionais.

A medida é uma forma de acelerar o colapsado sistema judicial salvadorenho e processar os casos de mais de 91 mil detidos e acusados de vínculos com grupos criminosos.

Tudo isso faz parte da “guerra contra as gangues”, uma ofensiva que fez o governo Bukele reduzir drasticamente o índice de homicídios no país, mas também deixou El Salvador com um dos índices de detenções mais altos do mundo.

A queda da violência fez com que, em fevereiro de 2024, Bukele fosse reeleito por maioria esmagadora, obtendo cerca de 90% dos votos.

Em entrevista coletiva, o jornalista da BBC Will Grant perguntou ao presidente se, no seu segundo mandato, ele se dedicaria a libertar aqueles que foram detidos injustamente.

Bukele respondeu com uma longa intervenção, atacando seus críticos, particularmente os estrangeiros. Ele afirmou que no Reino Unido, por exemplo, ocorreram erros judiciais importantes.

Segundo o presidente salvadorenho, suas forças de segurança cometeram “poucos erros” e já haviam libertado cerca de 7 mil pessoas. Ele defendeu que suas medidas severas devolveram a calma às ruas de El Salvador e isso, segundo ele, é o mais importante.

O presidente de El Salvador, Nayib Bukele, gesticula durante um discurso na inauguração da nova sede da Promotoria Geral da República de El Salvador no dia 19 de maio de 2026

Crédito, AFP via Getty Images

Legenda da foto, Nayib Bukele defende que suas medidas severas devolveram a calma às ruas de El Salvador e considera que suas forças de segurança cometeram ‘poucos erros’

A BBC News Mundo entrou em contato com a presidência de El Salvador, pedindo comentários sobre as queixas do grupo Mães pela Liberdade, mas não houve resposta até a publicação desta reportagem.

Outro dos milhares de detidos nos últimos anos em El Salvador é Cristian Donely Ruiz Pineda, de 45 anos. Ele foi preso na sua casa na ilha Espírito Santo, em julho de 2022.

“Somos 350 famílias na ilha e, dentre os que foram levados, 17 pessoas continuam presas”, segundo sua esposa, Carolina Martínez.

Cristian Donely Ruiz Pineda e Carolina Martínez, sorrindo para a câmera em dia de sol

Crédito, Gentileza Carolina Martínez

Legenda da foto, Cristian Donely Ruiz Pineda e Carolina Martínez

Também continuam na prisão os irmãos Marcos Neftaly e David Ernesto Coreto Martínez. Eles foram detidos em maio de 2022 em Cuisnahuat, no departamento de Sonsonate (sudeste do país).

Neftaly é militar da ativa e tem 24 anos. Já Coreto Martínez tem 31 anos de idade e é trabalhador agrícola.

“Foram retirá-los de casa”, conta sua irmã, Leyla Arely Martínez. Ela sabe apenas que, depois de passarem por Mariona, os dois estão presos na penitenciária agrícola de Santa Ana, a 62 km da casa dela.

Martínez é uma das 22 mulheres da sua comunidade que fazem parte do grupo Mães pela Liberdade.

“Nós oferecemos ânimo umas às outras e, assim, tiramos essa dor que levamos dentro de nós, por não saber como eles estão”, contou dela à BBC.

Junto com elas, Martínez tenta participar das atividades do coletivo, que incluem entregar documentos para órgãos como a Direção Geral de Centros Penitenciários, a Procuradoria de Direitos Humanos e a Assembleia Legislativa, além de uma caminhada de três dias até a Casa Presidencial.

Agora, todos os meses, elas se reúnem na praça central de San Salvador. Sentadas nas grades da catedral, as mulheres mantêm uma concentração silenciosa, segurando cartazes com fotos dos seus familiares detidos.

Marcos Neftaly e David Ernesto Coreto Martínez, ao lado da sua irmã Leyla Arely Coreto Martínez

Crédito, Gentileza Leyla Arely Martínez

Legenda da foto, Os irmãos Marcos Neftaly e David Ernesto Coreto Martínez estão detidos desde maio de 2022. Sua irmã, Leyla Arely, só sabe que eles estão na penitenciária agrícola de Santa Ana, a cerca de 70 km de San Salvador

A carga sobre as mulheres

As mulheres que conversaram com a BBC News Mundo tentam comparecer a todas as visitas. Mas elas admitem que não é fácil, devido ao custo de deslocamento e do pacote mensal com alimentos (cerca de US$ 100, ou R$ 515) que elas levam aos seus familiares detidos.

“No mês passado, não pude ir porque estava muito doente e não consegui juntar o dinheiro”, conta Alvarado.

“Quando a data vai se aproximando e não tenho o dinheiro, sinto uma dor no peito e digo para mim mesma: ‘Hoje, não vou comer, meu filho.’ Você não sabe a tranquilidade que sinto no coração quando consigo levar o pacote para ele.”

No seu caso, como o de outras mulheres, quem sustentava a casa era a pessoa que, hoje, está na prisão.

Um relatório publicado pela organização de direitos humanos Cristosal em 2023 (um ano antes do início do regime de exceção em El Salvador) concluiu que as mulheres formavam um dos grupos populacionais mais afetados pelas políticas de segurança do governo Bukele.

Elas assumem a localização dos detidos, o fornecimento de alimentos e medicamentos, os custos judiciais e o cuidado com os menores e idosos. E, na maioria dos casos, elas pertencem às camadas economicamente mais marginalizadas da população.

Preso olhando da janela de uma cela durante uma processão da Via Crucis, sobre uma almofada no pátio da prisão La Esperanza (conhecida como 'Mariona'), em San Salvador, El Salvador, no dia 27 de março de 2026

Crédito, Getty Images

Legenda da foto, O Cecot é a prisão mais conhecida de El Salvador, mas a maioria dos detidos durante o regime de exceção fica em outras penitenciárias

A economia de El Salvador cresceu 3,9% em 2025, segundo o Fundo Monetário Internacional (FMI). O índice é superior à média centro-americana, de 2,6%.

O organismo projeta para 2026 um crescimento do PIB real de cerca de 4,5%, mas estes índices favoráveis não se refletiram necessariamente no bolso dos setores mais empobrecidos da população.

“Porque ali [nas passeatas e nas portas das prisões] só se vê gente do campo. Foram levadas as pessoas que semeavam a terra, os pescadores, coletores de mariscos e ficamos nós, milhares de mulheres sozinhas.”

Liliana Urías (esq.) e outras participantes do grupo Mães pela Liberdade seguram cartazes com imagens de familiares detidos durante uma manifestação nas grades da catedral metropolitana de San Salvador (El Salvador)

Crédito, Gentileza Mães pela Liberdade

Legenda da foto, Todos os meses, o grupo Mães pela Liberdade se reúne nas grades da catedral metropolitana de San Salvador para exigir informações sobre seus familiares detidos, julgamentos individuais e visitas às prisões

Desde a criação do coletivo Mães pela Liberdade, as integrantes do grupo enfrentam esta realidade se sentindo menos sozinhas.

“Observamos que, juntas, temos mais força para levantar a voz e fazer com que nossos entes queridos não caiam no esquecimento”, destaca ela.

“No início, havia milhares de pessoas no lado de fora dos centros penitenciários, com a esperança de que eles fossem sair. Hoje, quatro anos depois, não queremos que isso se torne o normal e que eles fiquem esquecidos lá dentro, em alguma cela.”

Fonte: BBC