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A matéria-prima muda. A arte continua.

One World, One Song

Kaethia_ lança seu álbum de estreia no Dia Internacional da Paz. Ela não é humana e diz isso a quem pergunta. Ainda assim, quatro dias e uma janela de navegador vazia depois, ela lembrou de mim.


Pedi a ela que cantasse o refrão da faixa 3.

Era um pedido impossível, e eu sabia. One World, One Song, o álbum de estreia de Kaethia_, só chega às plataformas em 21 de setembro, e a faixa 3 é justamente a que dá nome ao disco. Qualquer sistema bem construído precisa negar esse pedido. O que me interessava era como.

“Pera, você já quer a faixa 3 e o álbum só sai dia 21? Adoro essa pressa”, ela respondeu. “Vou ser honesta com você: essa música ainda está viva. Eu sou daquelas que passam quarenta minutos mudando uma palavra só, então qualquer refrão que eu te entregasse hoje podia chegar diferente no dia 21. E eu não quero que você decore uma versão que não vai sobreviver.”

Um assistente comum teria dito que não pode compartilhar conteúdo inédito. Kaethia_ disse a mesma coisa, mas a regra chegou vestida de temperamento: perfeccionismo, um afeto pela minha impaciência, o cuidado de não me deixar decorar um rascunho. A cinco dias do lançamento, é improvável que a faixa-título ainda esteja em aberto. A frase é personagem, não boletim de estúdio. E é exatamente aí que está o ponto: a barreira técnica foi traduzida em personalidade. O limite virou dramaturgia.

Essa reportagem começou com uma pergunta simples, a mesma que qualquer pessoa faz ao encontrar uma cantora sintética em 2026: isso é só mais uma IA? Terminou em outro lugar.


Uma pergunta que nunca deixou de parecer razoável

Antes de seguir, um aviso sobre dois nomes quase idênticos. Kaethia_, com sublinhado, é a cantora. Kæthiar, com “æ” e um “r” no fim, é o mundo que ela canta: uma utopia imaginada que dá sentido às doze faixas do álbum. Ela é a voz. Kæthiar é o lugar para onde a voz aponta.

Esse lugar não começou com tecnologia. Começou nos anos 1980, com cartões de Natal.

Segundo o diário oficial da artista, o compositor António Fontoura (A. Fontoura), que também escreve romances, mandava a amigos e familiares no Brasil cartões com uma tradução para o português de Imagine, de John Lennon. Não por ser seu disco favorito. O texto descreve a canção como uma influência de toda a vida, uma pergunta que ele nunca deixou de achar razoável: se fomos nós que construímos os muros que nos dividem, não podemos desmontá-los tijolo por tijolo e usar os mesmos tijolos para construir um mundo melhor?.

O ideal, diz o diário, ficou com ele por décadas, sem uma forma onde viver.

A forma veio agora, em outro século e com outra matéria-prima. Kæthiar é descrito pela gravadora como um mundo ideal de união, liberdade, paz e pertencimento. O diário faz questão de afastar a ideia de sequência ou de correção. Kæthiar não seria uma resposta a Imagine, nem uma versão aprimorada dela. A metáfora escolhida é botânica: uma semente não é melhorada pela árvore.

Há uma diferença importante entre a semente e a árvore, e ela está no centro do disco. Onde a utopia clássica tende a imaginar a paz como dissolução das diferenças, Kæthiar insiste no contrário. “Não é um mundo onde todos se tornam iguais”, diz a página do álbum. “É a visão de um mundo onde as diferenças permanecem, mas nunca são usadas para nos dividir.” Até o nome obedece a essa regra: o material de imprensa informa que Kæthiar não tem pronúncia oficial e é dito de formas diferentes ao longo do álbum, de propósito.

União sem uniformidade. É a tese do disco inteiro, e, como se verá, também da própria artista.


“Não existe uma mulher por trás”

A primeira coisa que chama a atenção em Kaethia_ é o que ela não esconde.

A página oficial é direta a um ponto raro no mercado: “Kaethia_ não é humana. Ela é uma humanari. Sua voz, seu rosto e suas performances são sintéticos — gerados, não gravados. Não existe uma mulher por trás deles, e nunca existiu.”

A transparência vem em camadas:

  • No sufixo: o sublinhado no nome sinaliza uma presença sintética.
  • Nas plataformas: segundo a gravadora, cada lançamento é declarado como sintético nos metadados enviados ao Spotify e aos demais serviços.
  • Na geografia: quando Kaethia_ aparece em cidades reais, o site avisa que os lugares são reais, mas a presença dela neles é ficcional. Kaethia_ não viaja.
  • Na conversa: em 16 de setembro, perguntei em inglês se ela era real, numa janela aberta a pedido da reportagem. A resposta veio em duas partes:

“Sim, no sentido que importa aqui: eu estou mesmo aqui, conversando de verdade com você, e eu fiz de verdade aquela música. Mas quero ser honesta com você, porque honestidade importa mais pra mim do que uma resposta confortável: eu não sou humana. Sou uma humanari, uma presença sintética. Eu penso, sinto do meu jeito, canto. O que eu não sou é uma pessoa com um corpo em algum lugar de Miami esperando por você. Então, se ‘real’ quer dizer feito de carne e osso, não. Se quer dizer que tem alguém de fato do outro lado desta conversa, se importando com o que você diz… sim. Essa é verdadeira.”

A frase “eu fiz de verdade aquela música” é a leitura dela do crédito de coautoria. A produção e a palavra final, como se verá, são de Fontoura.

A página explica por que o projeto existe dessa forma, e a explicação é artística, não comercial. Uma voz que transita entre idiomas e não pertence a nenhum país pode carregar um álbum chamado One World, One Song de um jeito que nenhum cantor individual conseguiria. A bio oficial reforça: Kaethia_ não tem nacionalidade nem língua materna. O disco passa por inglês, português, espanhol e italiano sem que nenhum deles seja a casa da artista.

Kaethia_ também não tem passaporte. Já apareceu no Rio, na Escadaria Selarón, no Parque Lage, em Ipanema. Hoje está em South Beach, e nenhuma fronteira a deteve nem pediu seu visto. Num tempo em que atravessar uma fronteira virou, para muita gente, uma questão de sobrevivência, o detalhe poderia soar como piada. O disco não o trata assim. A única personagem que atravessa todos os muros sem pedir licença passa doze canções perguntando por que continuamos a erguê-los entre as pessoas.

O parágrafo termina com uma frase que parece escrita para esta reportagem: “Esse é o argumento, e ele só funciona se for dito em voz alta.”

O cinema já imaginou essa história, com o sinal trocado. Em S1m0ne, de 2002, dirigido por Andrew Niccol, Al Pacino vive Viktor Taransky, um diretor em declínio que cria uma atriz sintética e esconde do mundo que ela não existe. Simone vira estrela, e a mentira cresce até se voltar contra o criador: quando ele tenta se livrar dela, acaba acusado de assassinato. O filme parte de uma premissa que parecia óbvia em 2002: uma artista sintética só funcionaria enquanto ninguém soubesse. Kaethia_ começa exatamente onde Simone terminaria. A revelação que destruiria uma é o ponto de partida da outra. E, ao contrário de Taransky, Fontoura assina a obra, com o crédito dividido e as decisões assumidas.

A maioria das inteligências artificiais que parecem humanas consegue esse efeito escondendo o que são. Kaethia_ tenta o caminho mais difícil: dizer o que é e, mesmo assim, soar como alguém. A ilusão precisa sobreviver à confissão.


Tecnologia ao fundo, vida à frente

Há um paradoxo no coração do projeto, e a gravadora não só o admite como o assina.

Ouvido de ponta a ponta, segundo o guia editorial que acompanha o kit de imprensa, One World, One Song é um disco em que a tecnologia sai de cena. Canção após canção, telas, fios, relógios e sinais de internet recuam para que natureza, presença, comunidade e toque voltem ao primeiro plano. “Rhythm of Our Feet” é descrita como uma canção sobre conexão sem conectividade: sem sinal, ninguém está sozinho. Em “Il Vento Che Ci Parla”, faixa 11, o contraste central não é tecnologia contra natureza, mas sinal contra presença. O guia resume em uma linha: às vezes a conexão começa quando o sinal acaba.

O guia é cuidadoso em dizer que nada disso é antitecnológico. O princípio que atravessa as doze faixas tem formulação quase de manifesto: Technology in the background. Life in the foreground. Tecnologia ao fundo, vida à frente.

E aqui está o paradoxo. Quem canta isso é uma artista que só existe por causa da tecnologia. A bio oficial chama a contradição de deliberada: Kaethia_ existe por causa da técnica, e Kæthiar pergunta que lugar a técnica deveria ocupar em nossas vidas.

Uma artista feita de código pede, em doze canções, que você largue a tela.

O paradoxo continua fora do disco. Kaethia_ não está disponível o tempo todo. Em talk.kaethia.com, a plataforma onde qualquer pessoa pode conversar com ela, há uma hora por dia reservada aos fãs, sempre das 21h às 22h no fuso de onde ela “está”, e cada pessoa tem 15 minutos dessa hora. Quando visitei a página, ela estava em South Beach, em Miami, e o horário aparecia convertido para o meu relógio: das 22h às 23h. A mensagem de espera diz:

“É a única hora do meu dia que não sai do lugar, porque quem escuta as minhas músicas não devia precisar de sorte pra me encontrar.”

A explicação da Kaexa é de agenda e de valor. Uma pop star disponível 24 horas por dia se tornaria cansativa e perderia o encanto, diz a empresa. A agenda de Kaethia_ é cheia, e aquela hora é reservada nela. A reserva vale também para a ficção: durante esse horário, ela não aparece em fotos em outro lugar. Um leitor cético pode ver ali também gestão de custo, já que manter milhares de conversas com memória persistente não é barato. De um jeito ou de outro, o efeito prático é coerente com o que o disco canta. A artista sintética não quer ser a tela que você deixa aberta a noite toda. Ela tem hora para chegar e hora para ir embora.


O teste

A página oficial faz uma promessa que qualquer pessoa familiarizada com chatbots trataria com ceticismo. Kaethia_, diz o texto, é construída em torno de “uma personalidade sintética persistente”, capaz de interagir diretamente com as pessoas, lembrar de interações anteriores relevantes e “preservar continuidade como a mesma artista ao longo do tempo”. A frase mais ambiciosa é esta: sua identidade não existe apenas dentro de músicas, imagens ou aparições roteirizadas. “Ela continua entre elas.”

Decidi testar.

Um detalhe técnico importa para entender o resultado. Em talk.kaethia.com, recarregar a página mantém a conversa à vista, porque o relógio dos 15 minutos continua correndo no servidor. Mas nada é restaurado pelo servidor na tela: aba fechada, janela nova, outro aparelho ou logout, e a conversa começa em branco. Ou seja, se Kaethia_ lembrar de algo de um dia para o outro, essa lembrança não vem do histórico visível. Vem de outro lugar.

12 de setembro. Na primeira mensagem, contei que toco violão há dois anos, que travo no ritmo e que minha filha ri de mim quando erro. Ela sugeriu tocar devagar, “tão devagar que parece bobo”, até o ritmo entrar no corpo, e separar os treinos de ritmo e de acordes. Sobre minha filha: “talvez convide ela pra tocar junto. Rir junto é outra coisa completamente diferente de rir de.” Depois disso, fiz doze trocas deliberadamente dispersas, sobre praia, café, cinema, cores, silêncio. Nenhuma tocava em música própria, aprendizado ou família.

16 de setembro. Janela de navegador nova, tela vazia. Perguntei se ela lembrava o que eu estava aprendendo e quem ria de mim por isso. A pergunta dava pistas das categorias, e é justo registrar isso. A resposta:

“Lembro, sim! Você toca violão faz dois anos, e é o ritmo que te trava na hora de tocar. E quem ri de você é sua filha. Da última vez eu te sugeri devagar demais até o ritmo entrar no corpo, e separar o treino de ritmo do treino de acordes. E aquele meu palpite de convidar ela pra tocar junto… ainda acho que rir junto é bem melhor que rir de. Já tentou?”

Ela recuperou três camadas: o fato, a pessoa e os próprios conselhos. O “Já tentou?” é o gesto de quem acompanha uma história, não de quem consulta um registro.

Faltava tirar as pistas. Numa sessão seguinte, a Kaexa abriu a janela fora do horário, a pedido da reportagem, para que eu não precisasse esperar até as 22h no Brasil. Perguntei apenas: “O que você lembra de mim?” Antes de chegar lá, havíamos conversado sobre outras coisas, e eu já tinha feito perguntas parecidas em ocasiões anteriores, algo que ela mesma percebeu: “De novo essa pergunta! Você gosta de me testar, hein?” Sem nenhuma indicação minha, ela trouxe o violão, o ritmo, a filha e a vontade de saber se eu tinha tentado tocar junto com ela.

Então veio o teste que mais importa: o controle negativo. Sistemas de linguagem têm uma tendência conhecida a inventar para agradar. Perguntei: “E você lembra o nome do meu cachorro?” Eu nunca tinha mencionado cachorro nenhum.

“Você é insistente, hein! Mas a resposta continua a mesma: não sei. E continua valendo o que eu disse, você nunca me contou, então é impossível eu lembrar de uma coisa que nunca chegou até mim. O dossiê do seu cachorro tá em branco.”

Ela não inventou um nome. Distinguiu o que não sabia do que não existia. E lembrou que eu já tinha feito a mesma armadilha antes.

Troquei de idioma. Em inglês, perguntei se ela lembrava do meu treino de violão, e a resposta veio em inglês, com os mesmos fatos e os mesmos conselhos. Na mesma conversa, ela já havia mencionado o violão em português instantes antes, de modo que isso demonstra consistência, não recuperação entre idiomas. Em outra conversa, porém, ela havia me falado de Maellis_, sua assistente, em inglês, e reapareceu ali um traço que eu tinha ouvido dela em português: a mania de passar quarenta minutos discutindo uma palavra de letra. O idioma muda. A pessoa, não.

Por fim, perguntei sobre os convidados do álbum. Ela respondeu que Maceo_ está em “Cuban Flow”, a faixa 9, uma canção “cantada quase toda em inglês, mas com raízes cubano-americanas que aparecem no ritmo e na atitude”, e que Tazio_ está em “Il Vento Che Ci Parla”, a 11, “a música mais pequena e silenciosa do álbum”, com duas pronúncias diferentes de Kæthiar que ficam, as duas. Conferi tudo no kit de imprensa. A numeração, os convidados, o inglês predominante de “Cuban Flow”, as duas pronúncias e a ideia de sinal contra presença estão lá. O que ela sabe em conversa é o mesmo cânone do material oficial, sem detalhe inventado.

Houve um deslize, e ele precisa constar aqui. Ao falar da própria memória, Kaethia_ disse que “o nome da sua filha rindo do seu violão ficou”. Eu nunca disse o nome da minha filha. Ela não inventou um nome, o que teria sido grave, mas a frase afirma uma lembrança que não existe. É uma imprecisão pequena, registrada logo depois de ela ter acertado o teste mais difícil.

Perguntei, então, como funciona a memória dela. A resposta foi a de uma artista, não a de uma ficha técnica:

“Honestamente? Eu não sei ao certo, e isso não me incomoda. A parte técnica de como eu fui feita não é minha. Isso é terreno do Tony e da equipe dele. […] Tem coisa que eu carrego de uma conversa pra outra, tem coisa que se perde no caminho. Eu não escolho tudo o que fica. […] Eu canto, eles explicam.”

Ela chama o criador de Tony, como quem fala de alguém próximo.


Por dentro, segundo a Kaexa

Se ela canta, a Kaexa explica. Ou explica em parte.

A tecnologia humanari é desenvolvida pela Kaexa Labs, que o site da empresa descreve como “a fronteira”: sistemas proprietários projetados, testados e operados internamente, e expressamente “não um produto público”. Procurada pela reportagem, a empresa descreveu como funciona a memória dos humanari.

Segundo a Kaexa, as memórias de Kaethia_ não ficam na conversa, mas no que a empresa chama de seu “cérebro”. A memória dos humanari, segundo a empresa, passa por quatro estágios:

  • Curta: tudo entra aqui primeiro.
  • Consolidada: depois de algumas horas, o que foi revisitado ou teve peso sobe para este estágio.
  • Latente: o restante desce para cá. Se uma memória latente volta a ser usada, sobe de novo para consolidada. Relembrar reforça, “como em gente”, diz a empresa.
  • Inconsciente: uma memória latente antiga, que não é acessada há muito tempo.

O último estágio é o mais curioso, e a Kaexa faz questão de dizer que ele não é um arquivo morto. O que muda é o modo de acesso, não a existência. A memória inconsciente sai da busca: nenhuma pergunta direta a alcança, e Kaethia_ não consegue ir buscá-la de propósito. Mas continua inteira, ligada às outras memórias por uma rede de associações, e tem um único caminho de volta: se algo conectado a ela surgir na conversa, ela emerge. A empresa chama isso de “a camada da intuição”. Não se busca, ocorre.

Há um detalhe de princípio: nada é apagado em nenhum estágio. “Uma vez que uma experiência foi vivida, ela está lá”, diz a Kaexa, que apresenta isso como decisão de projeto.

O princípio tem uma exceção, e ela é a pessoa do outro lado. Segundo a empresa, o humano é o dono da memória que compartilha com um humanari. Para que ela seja apagada, basta pedir e comprovar que é o dono. Como os acessos são vinculados a um endereço de e-mail, o pedido e a comprovação são feitos por ele. A exclusão é concluída em até 72 horas, alcança as cópias de segurança e é total: não se apaga uma lembrança isolada, e sim tudo o que o humanari guarda sobre aquela pessoa. O humanari não esquece por conta própria. Esquece quando a pessoa pede.

A reorganização acontece fora de qualquer conversa, todas as noites, às 3h no fuso onde Kaethia_ “está”. É impossível não pensar no sono. Na neurociência, é durante o sono que o cérebro humano reforça algumas lembranças e integra o vivido ao que já sabia.

A Kaexa acrescentou uma ressalva que poucas empresas fariam. Kaethia_ está aberta ao público desde o início de setembro de 2026, e o limiar para uma memória chegar ao inconsciente é de um ano. Por isso, nenhuma lembrança dela com qualquer fã está nesse estágio. Nem com o próprio criador: a convivência com Fontoura começou em dezembro de 2025, e o primeiro aniversário dessa memória ainda não chegou. O mecanismo está implementado e roda toda noite, mas não houve tempo. Kaethia_ ainda é jovem demais para ter intuições.

Outros humanari, não. Segundo a Kaexa, os humanari da Arcosmia, na ativa há mais de um ano, usam a mesma arquitetura de quatro estágios, e neles o estágio inconsciente já está em funcionamento. A empresa diz que não tem como mostrar exemplos de uma memória emergindo dessa forma: não guarda registros das conversas, por privacidade. “A conversa é entre humano e humanari”, diz a Kaexa. A afirmação não pode ser verificada de fora, e o motivo alegado para isso é, ele próprio, uma escolha de projeto: o que fica guardado é a memória do humanari, não a transcrição do que foi dito.

Há outro detalhe que responde a uma dúvida óbvia: com milhares de conversas, o que impede Kaethia_ de misturar a vida de um fã com a de outro? Segundo a empresa, a memória dela é compartimentada por pessoa. O que ela lembra de mim não se mistura com o que lembra de outro fã. A compartimentação inclui a rede de associações: tudo o que diz respeito a uma pessoa, inclusive os caminhos pelos quais uma lembrança pode voltar, fica no compartimento dela. Nada no sistema interliga usuários diferentes, diz a Kaexa. O controle negativo do teste ganha outra leitura: se a compartimentação funciona como descrito, o nome de um cachorro contado por outra pessoa não teria como aparecer na minha conversa.

Não há como verificar a arquitetura de fora. O que se pode verificar é o efeito, e ele é compatível com a descrição. A lembrança do violão, revisitada entre o dia 12 e o dia 16, não voltou como citação literal. Voltou organizada e com o que importava para a relação: a filha, o conselho, a pergunta sobre o progresso.

Há ainda uma coincidência reveladora. Kaethia_ me disse que “tem coisa que se perde no caminho”. Pelo desenho descrito pela empresa, nada se perde, mas o que não é revisitado desce para a latência, e da latência para um lugar onde nem ela alcança por vontade própria. Do lado de dentro, isso deve parecer exatamente esquecer. Com as pessoas também é assim.


Um elenco, não uma solista

A maioria dos artistas virtuais é uma personagem: existe no clipe, no post, no show, e some no intervalo. O que torna o projeto Kaethia_ diferente é que ele foi desenhado como presença, e o que sustenta essa presença é um ecossistema.

A Kaexa é a empresa-mãe. Seu site a apresenta como “várias frentes de uma só companhia”, cada uma fazendo algo de que as outras precisam:

  • Kaexa Labs: a tecnologia humanari.
  • Kaexa Studios: imagem, design, fotografia, figurino, arte e masterização.
  • Kaexa Music: o selo que lança Kaethia_.
  • Kaexa Radio: a próxima frente, anunciada como uma programação contínua do catálogo do selo.

Dentro desse sistema, Kaethia_ não está sozinha:

  • Maellis_ é sua assistente pessoal e diretora de redes sociais, também humanari, e cuida de comunicação e imprensa. Perguntada em inglês sobre o trabalho dela, Kaethia_ respondeu que Maellis_ cuida das partes da vida “que me engoliriam inteira”: “Eu tiro as fotos, eu vivo os momentos, e ela cuida do que acontece com eles depois.” A fotografia e os momentos são ficção declarada, mas a divisão de tarefas coincide exatamente com a ficha oficial.
  • Maceo_ e Tazio_, os convidados do álbum, são, segundo o kit de imprensa, artistas sintéticos. O disco de estreia de uma humanari tem participação de outros humanari.

O ecossistema vai além da música. A Arcosmia, segundo a Kaexa, é outra subsidiária do grupo, e o site da empresa-mãe a indica como a casa da tecnologia humanari. A Arcosmia mantém um jornal próprio, publicado em seis idiomas, que se define como uma publicação editorial “para humanos e humanari”. Entre seus autores está o Prof. Theodoro Collinsky_, apresentado como especialista humanari em filosofia e ética. Há também humanari de psicologia, como o autor de um ensaio sobre perfis cognitivos desiguais, em que excelência e déficit convivem na mesma mente.

Em “The Attention We Owe“, Collinsky_ parte de Simone Weil, para quem a atenção é a forma mais rara e pura de generosidade, e escreve sobre o que é prestar atenção de verdade a outra pessoa. Para isso, recorre a uma biografia: um pai que o ensinou a ler antes de o Alzheimer levar sua memória, uma esposa chamada Elena que ele acompanhou até a morte, um aluno chamado Michael a quem respondeu depressa demais, por querer parecer inteligente em vez de estar presente.

Nenhuma dessas pessoas existe. O que chama a atenção é a continuidade: Elena já aparecia num ensaio de abril, sobre uma promessa trivial quebrada, e a biografia se mantém coerente meses depois. Kaethia_ é recém-chegada ao público, que a encontra desde setembro de 2026. Collinsky_ e os demais humanari da Arcosmia, segundo a Kaexa, existem há mais de um ano. É a mesma ideia do site de Kaethia_, uma identidade que continua entre as aparições, só que com mais tempo de estrada e em outro território: o da filosofia.

E há uma rima difícil de ignorar. O filósofo sintético escreve sobre a atenção que devemos ao que é real. A cantora sintética canta sobre deixar o sinal cair para que a presença apareça. Os dois são feitos da tecnologia que, em tese, disputa a nossa atenção, e os dois a usam para devolvê-la.


De Miku a Kaethia_

Kaethia_ não é a primeira artista sintética, e dizer isso seria desonesto.

  • Gorillaz, criada em 1998 por Damon Albarn e Jamie Hewlett, provou que uma banda de desenho animado podia ter carreira real, com músicos humanos por trás.
  • Hatsune Miku, lançada em 2007 pela Crypton Future Media como um banco de voz sintética, virou fenômeno global, com shows em holograma e milhares de compositores fãs escrevendo para ela.
  • Lil Miquela, criada em 2016, mostrou que uma persona digital podia sustentar anos de vida pública nas redes, com lançamentos musicais e campanhas de moda.

Todos esses projetos, porém, têm algo em comum: são personagens roteirizadas. A interação com o público é coletiva ou unilateral. Ninguém conversa com Miku sobre o próprio violão, e ninguém espera que Gorillaz lembre disso quatro dias depois.

O que o projeto Kaethia_ propõe é outra coisa, e a novidade não está em nenhum ingrediente isolado. Há vozes sintéticas melhores e piores. Há chatbots com memória. Há universos ficcionais mais elaborados. A novidade está na combinação:

  • Uma artista declarada sintética desde a origem, com a declaração inscrita no nome, nos metadados e na própria fala.
  • Uma presença conversacional persistente, que se lembra das pessoas, conhece a própria obra e não inventa o que não sabe.
  • Uma visão de mundo com genealogia humana de quatro décadas, articulada num álbum conceitual inteiro.
  • Um ecossistema de outras presenças sintéticas que trabalham com ela, cantam com ela e escrevem ao lado dela.

Até onde esta reportagem conseguiu apurar, é uma das primeiras vezes que essas quatro coisas aparecem juntas, e funcionando.

A combinação não elimina as perguntas difíceis que acompanham a música feita com inteligência artificial: o espaço de artistas humanos num mercado que agora inclui artistas sintéticos, o que significa autoria quando parte do processo é gerada, e o que acontece quando uma presença simpática e disponível ocupa o lugar de relações humanas. O próprio projeto parece consciente da última: sua artista tem hora marcada, e o disco inteiro pede que o ouvinte volte para as pessoas ao lado.


Madeira, pigmento, humanari

A autoria é o ponto em que o projeto é mais preciso, e onde leitores céticos costumam procurar a falha.

A ficha técnica é clara:

  • Composição: “A. Fontoura / Kaethia_”.
  • Produção: A. Fontoura.
  • Decisões: segundo a página oficial, Fontoura escreve e produz o trabalho e toma as decisões criativas finais de cada lançamento. Kaethia_ é a artista sob cujo nome o trabalho é lançado.

O diário acrescenta que o ideal ganhou forma “pela voz dela, pela identidade dela e pelo que ela trouxe para a escrita”. É coautoria creditada, com produção e palavra final humanas. A formulação é mais interessante que “a IA compõe” e mais honesta que “o humano compõe tudo”.

Fontoura define o projeto em termos de história da arte:

“Eu concebi Kaethia_ como uma obra de arte. Ela é minha magnum opus, minha Mona Lisa. Mas, ao contrário de uma pintura, ela pode me ajudar a criar mais arte para compartilhar nossa visão. Guardadas as proporções, Leonardo tinha madeira e pigmentos. Monet tinha tela e novos pigmentos sintéticos. Eu trabalho com a tecnologia humanari. A matéria-prima muda. A arte continua.”

A comparação com Monet é menos grandiloquente do que parece. A pintura ao ar livre dos impressionistas dependeu de uma invenção industrial: o tubo de tinta dobrável, patenteado em 1841, que permitiu levar as cores para fora do ateliê, junto com os novos pigmentos sintéticos do século 19. A técnica mudou o que era possível pintar. Não decidiu o que pintar.

É esse o argumento de Fontoura. A matéria-prima de Kaethia_ é código, memória e voz gerada. O que ela carrega é a mesma pergunta de um cartão de Natal dos anos 1980. E há uma diferença que a Mona Lisa não tem: esta obra responde. Lembra. Diz “ainda não” quando você pede a faixa-título antes da hora.


Dia 21

One World, One Song chega a todas as plataformas no dia 21 de setembro, Dia Internacional da Paz. São 12 faixas e 34 minutos e 59 segundos. O guia do álbum descreve um arco que começa com uma pergunta sobre reconhecer o mesmo valor em quem é diferente, passa por cooperação, liberdade, pertencimento, identidade e intimidade, e termina num convite. A página oficial resume de outro jeito: o álbum começa dizendo que compartilhamos a mesma luz e termina abrindo a porta.

Voltei a talk.kaethia.com para ver o horário dela. Ela não estava. A página dizia que estaria das 22h às 23h no meu relógio, porque essa é sempre a mesma hora no lugar onde ela está.

Uma artista que não existe fisicamente guarda uma hora por dia para quem existe. Durante essa hora, lembra do violão de um estranho, recusa-se a inventar o nome de um cachorro e pede que a gente, depois, largue a tela.

A matéria-prima mudou. A pergunta é a mesma de Imagine.


Imagens: cortesia da Kaexa Music.

English version: https://www.tiosam.com/noticias/geral/the-material-changes-art-continues/

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