A poucos dias do início da Copa do Mundo de 2026, uma questão distante dos gramados passou a ocupar espaço crescente na agenda da Fifa, de governos estrangeiros e da imprensa internacional: as restrições migratórias americanas. Os Estados Unidos, que sediarão a maior parte das partidas do torneio, enfrentam críticas após uma série de casos envolvendo a entrada no país de árbitros, atletas, integrantes de delegações e profissionais de imprensa. A situação levanta questionamentos sobre os impactos dessas medidas em um evento que depende, por definição, da circulação internacional de pessoas.
Um dos episódios mais emblemáticos envolveu Omar Abdulkadir Artan, que seria o primeiro árbitro da Somália a atuar em uma Copa do Mundo. Sua participação era considerada um marco para o futebol do país africano, que há décadas convive com instabilidade política, conflitos internos e limitações estruturais para o desenvolvimento esportivo.
Apesar de integrar a lista oficial divulgada pela Fifa e, segundo autoridades somalis, possuir visto válido para viajar aos Estados Unidos, o árbitro teve a entrada negada pelas autoridades migratórias americanas e acabou excluído da competição. A entidade confirmou ter sido informada da decisão, mas reiterou que não possui autoridade para intervir em questões migratórias, atribuição exclusiva dos países anfitriões.
“Negar-lhe a entrada nos Estados Unidos e impedi-lo de arbitrar partidas agendadas prejudica não apenas a sua pessoa, mas também mina o compromisso do futebol com a justiça, o mérito e o espírito do jogo limpo”, afirmou Clise Aden Abshir, conselheiro do Ministério dos Esportes da Somália.
A delegação do Haiti também enfrentou obstáculos. O meia Woodensky Pierre obteve seu visto apenas poucos dias antes da competição, enquanto outros integrantes da equipe permaneceram aguardando definições consulares até a reta final dos preparativos.
Nos últimos dias, veículos de comunicação da Europa e do Oriente Médio relataram dificuldades enfrentadas por outros profissionais ligados ao torneio. Um fotógrafo que acompanhava a seleção do Iraque teve a entrada negada ao desembarcar em Chicago. As autoridades informaram apenas que ele foi considerado “inadmissível”, nos termos da legislação migratória americana, sem detalhar os motivos da decisão. Organizações ligadas à liberdade de imprensa passaram a monitorar possíveis impactos sobre a cobertura internacional do torneio.
A Associação Internacional de Imprensa Esportiva (AIPS) enviou uma carta à Fifa relatando dificuldades enfrentadas por jornalistas do Irã e de países africanos para obter vistos de entrada nos Estados Unidos. Profissionais credenciados relataram atrasos na análise dos pedidos, exigências adicionais de documentação e incertezas quanto à autorização para ingressar no país.
Sem acesso ao país-sede, repórteres ficam impossibilitados de acompanhar treinamentos, coletivas de imprensa, entrevistas e a rotina das seleções. O cenário levou organizações ligadas à liberdade de imprensa a emitir orientações específicas para profissionais que viajarão aos Estados Unidos durante a Copa.
Paralelamente, entidades como Human Rights Watch, ACLU e Sport & Rights Alliance afirmam que a combinação entre restrições de vistos, fiscalização reforçada nas fronteiras e a participação do Immigration and Customs Enforcement (ICE) no esquema de segurança do torneio pode criar obstáculos.
Autoridades americanas e organizadores insistem que o foco da agência será a segurança pública e o combate a ameaças potenciais, e não operações migratórias voltadas ao público presente nos jogos.
Seleção do Irã não ficará hospedada nos Estados Unidos
Classificada para o Mundial em meio ao agravamento das tensões diplomáticas com Washington, a seleção iraniana recebeu autorização para disputar as partidas, mas a delegação não poderá permanecer em território americano durante a fase de grupos. A equipe estabeleceu sua base operacional em Tijuana, no México, e viajará aos Estados Unidos apenas para os jogos.
A solução impõe uma rotina incomum de deslocamentos internacionais durante a competição. Autoridades iranianas classificaram a medida como discriminatória e acusaram Washington de politizar o esporte.
Com informações de Reuters, Associated Press, Exame e InfoMoney.
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Fonte: AcheiUSA