As pegadinhas malandras da comida do supermercado

Tirei a congelante tarde de quinta-feira (19) para bater perna na Apas Show –uma gigantesca feira organizada pela Associação Paulista de Supermercados.

Quando eu digo bater perna, falo muito sério: o aplicativo do celular registrou 7,2 km de caminhada e 10.682 passos pela Expo Center Norte, em São Paulo, onde cerca de 800 expositores montaram suas tendas.

A feira abarcava absolutamente tudo relativo ao setor: sistemas de vigilância, consultoria fiscal, fabricantes de gôndolas e até aquelas empilhadeiras que disputam espaço com os carrinhos de compras no atacarejo.

Meu foco estava nos produtos, especificamente alimentos e bebidas. Cada estande era um convite à boca-livre de vinho, sanduíche, pizza e churrasco.

Numa importadora de doces e brinquedos, meia dúzia de tiozões semicalvos se reunia ao redor de uma chopeira, em cenário infantiloide pintado de rosa-choque e amarelo-CET. Bizarramente engraçado, um tanto perturbador.

É o típico almoço grátis que sai caro demais: para filar um rango e um gole, o preço é tolerar papo de vendedor. Algo que eu faço resignadamente em feiras de vinhos, não na Apas.

Lá, eu fui garimpar as estratégias das marcas para iludir o consumidor, para induzi-lo a comprar felino por leporino. Coisas como o hambúrguer de picanha sem picanha e o sanduíche de costela sem costela.

Essas pegadinhas vicejam nos supermercados, e a feira da Apas era o melhor lugar para se atualizar nos truques malandros.

A esquina de um fabricante de doces anuncia a bala de duas frutas –maçã com cereja ou pêssego com tangerina –, que na realidade não tem fruta alguma, só aroma artificial. A proeza matemática de efetuar a operação 1+1 = 0.

No espaço de uma grande marca de bebidas ditas saudáveis, uma placa traz a foto de três “shots probióticos” denominados “energia”, “relax” e “imune”. Respectivamente, contêm guaraná, maracujá e suco de limão. Quero ver a Covid-19 derrotar esse limão!

Cada palavrinha é importante na semântica das embalagens. A troca da preposição “de” por “com”, por exemplo, faz diferença crucial.

Você talvez já tenha percebido que os bolinhos de bacalhau congelados, há algum tempo, são bolinhos com bacalhau. Isso porque o bacalhau não é o ingrediente predominante na receita, vem em quantidade mixuruca.

Os bolinhos foram à Apas e não estavam sozinhos. Havia também um certo “doce pastoso com leite”, cujo componente majoritário é açúcar misturado a soro de leite e, em terceiro lugar, leite.

Com a exata aparência de doce de leite, a tal pasta vem em baldes de 10 kg para abastecer confeitarias que vão mandar às cucuias as filigranas semânticas. O doce de açúcar com soro será convertido em doce de leite para o consumidor final.

A campeã do deboche é uma mistura em pó para pão, como um bolo de caixinha em quantidade industrial, para atender padarias que só seguem as instruções da embalagem. O nome da coisa: pão da fazenda artesanal. Não basta ser artesanal, tem que ser da fazenda.

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Fonte: Folha de S.Paulo

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