
Barbados, um país insular da região do Caribe, guarda um tesouro ainda pouco conhecido dos brasileiros: o festival Crop Over, um evento semelhante ao nosso Carnaval, mas em ritmo caribenho.
Uma vez por ano, no ápice do calor, entre final de julho e começo de agosto, a ilha promove festas que começam em cafés da manhã e terminam em shows madrugada adentro, ao som dos estilos musicais calipso e soca.
Na primeira segunda-feira de agosto, um desfile de avenida, o Grand Kadooment Day, na capital, Bridgetown, encerra a programação oficial do festival. Caminhões —parecidos com os nossos trios elétricos— circulam pelas ruas e foliões acompanham o cortejo. As mulheres vestem fantasias ao estilo de passista de escola de samba, com direito a muito brilho e plumas exuberantes.
Em meio ao calor de mais de 30° C, uma multidão se diverte durante o dia inteiro. É uma mistura de desfiles, como os dos sambódromos, com trios elétricos, como os da Bahia, e Carnaval de rua, como os de Pernambuco.
A festa é uma tradição caribenha que começou ainda no século 17 para celebrar a colheita da cana-de-açúcar, um dos produtos agrícolas que foram o motor econômico da região quando os ingleses colonizaram a ilha.
Na década de 1940, após a Segunda Guerra Mundial, as celebrações do Crop Over diminuíram devido à queda na demanda por açúcar e ao fechamento de muitas plantações. No final da década de 1950 e início de 1960, a Câmara de Comércio, conhecida como Jaycees, organizou um carnaval com carros alegóricos, bandas de mascarados e concursos de calipso e de beleza, que fizeram ressurgir a festa no país.
Os esforços para impulsionar o turismo local levaram ao renascimento do Crop Over na década de 1970. Essa retomada foi liderada por Julian Marryshaw, assessor de turismo no país na época, e inspirada pelo ativista cultural Elton “Elombe” Mottley. Desde então, o festival tornou-se um importante motor econômico para o país.
Nesse período, Barbados tinha acabado de ficar independente, influenciado pelo movimento dos direitos civis e pelo pan-africanismo. O Crop Over, além de uma tradição festiva para celebrar a cultura negra local, também é um momento de reflexão sobre o período escravocrata, o seu fim e os reflexos nos dias de hoje.
Antes de os ingleses chegarem e verem valor econômico ali, portugueses e espanhóis haviam passado pela região e a abandonaram.
Os primeiros produtos explorados foram o tabaco e o algodão. Mas o baixo retorno econômico fez com que os colonizadores mudassem logo para a cana. A partir daquele momento, o destino de Barbados seria outro. A produção de açúcar forçou pequenos agricultores a abandonar a produção, dando espaço à chegada de grandes proprietários.
Essa expansão da produção do açúcar trouxe uma série de mudanças profundas à ilha. Além da consolidação das propriedades rurais em grandes fazendas, Barbados viu o fim do trabalho servil com europeus —por consequência, a redução da população branca— e a chegada em larga escala de escravizados negros do continente africano, que serviram de mão de obra para as plantações até a abolição.
Com o fim da escravidão, na primeira metade do século 19, mais de 70 mil barbadianos de ascendência africana saíram às ruas para comemorar. Hoje, o Dia da Emancipação é celebrado como feriado nacional em 1º de agosto.
Um dos símbolos desse movimento é a Estátua da Emancipação, do escultor Karl Broodhagen, que está no centro da rotatória J.T.C. Ramsay, em uma movimentada avenida da capital. A obra simboliza o rompimento das correntes da escravidão por ocasião da emancipação.
Os barbadianos chamam a estátua de Bussa, nome de um escravizado que ajudou a inspirar uma revolta contra a escravidão, em 1816 —uma liderança com uma história semelhante, guardadas as devidas proporções, à de Zumbi dos Palmares, no Brasil.
Bussa nasceu livre na região da África Ocidental, mas foi capturado e levado para Barbados como escravizado. Hoje, ele é celebrado como um herói nacional.
Por causa dessa herança histórica, mais de 90% da população de Barbados é negra. Segundo dados do governo, a ilha abriga mais de 280 mil habitantes.
O inglês britânico é a língua oficial da ilha, mas, ao andar pelas ruas do país, é possível ouvir também uma variante regional do inglês conhecida como bajan.
O idioma é mais falado pelos barbadianos no dia a dia, geralmente em contextos informais. É uma língua que mistura o inglês com vocabulário e expressões de origem crioula e que também traz alguma influência de outros dialetos do inglês caribenho. Um falante de bajan, por exemplo, pode ser incompreensível para um falante de inglês de outro país.
A influência britânica extrapola a comunicação. Ela está na arquitetura, na gastronomia, na cultura, por toda parte.
É por isso que Bridgetown é uma cidade horizontal. A maioria das casas são térreas, com uma pequena varanda na frente. A arquitetura também é bem colorida, ao estilo caribenho. Os prédios de poucos andares são reservados para os hotéis e resorts.
O esporte nacional é o críquete, uma modalidade que envolve taco e bola e é disputada por duas equipes. No dia em que a Folha chegou ao país, Garfield St. Auburn Sobers, um herói nacional do esporte, havia morrido e estava sendo homenageado por todo o país.
Outra grande celebridade na ilha caribenha é a cantora Rihanna, que recebeu o título de heroína nacional em 2021, justamente quando Barbados se desvinculou da monarquia britânica e se tornou uma República, após intensos debates sobre a herança escravocrata do período colonial.
A diva pop é muito celebrada na ilha. A rua onde está a casa em que a cantora passou a sua infância foi até rebatizada como Rihanna Drive e hoje é um dos pontos turísticos da cidade.
Como chegar a Barbados
Não há voos diretos entre Brasil e Barbados. A forma mais conveniente é voar de Copa Airlines (a partir de Porto Alegre, Florianópolis, São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Brasília, Salvador e Manaus), com conexão na Cidade do Panamá. Da capital panamenha, a companhia tem cinco voos semanais para Bridgetown. Quem tem visto americano também consegue ir via Miami, de onde a American Airlines oferece voos diários.
Fonte: Folha de S.Paulo