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Ex-CEO da CVC diz que turismo precisa de política de Estado e apoia Flávio Bolsonaro

“Ninguém se posiciona no turismo, né? Foi por isso é que me posicionei de uma forma aberta”, diz Fabio Godinho. Nos últimos dias, o executivo declarou apoio à candidatura de Flávio Bolsonaro (PL) à Presidência e o recebeu em jantar em sua casa, em São Paulo.

A posição contrasta com a que tinha em meados de 2023, quando dizia estar otimista em relação à gestão de Luiz Inácio Lula da Silva (PT), que via como alinhado ao segmento.

“Hoje os números não sustentam aquela animação”, afirma o executivo, que foi CEO da CVC, maior agência de viagens do país, na qual presidiu uma reestruturação do modelo de negócios após a crise causada pela pandemia. Ele também comandou a Webjet Linhas Aéreas, depois comprada pela Gol, e a rede hoteleira GJP Hotels & Resorts.

Sua principal crítica à atual gestão tem a ver com a constante troca de ministros —foram três ao longo de quatro anos, a mesma quantia de titulares que houve no governo de Jair Bolsonaro.

A Flávio, o executivo afirma que apresentou um documento detalhado, com 90 páginas, destrinchando alguns desafios do setor.

No início de 2023, você se disse otimista em relação ao governo Lula, mas nos últimos dias anunciou apoio a Flávio Bolsonaro. Por quê?
Eu estava animado em 2023, mas os números hoje não sustentam essa animação. Eu sou uma pessoa pragmática.

No ano passado, o Brasil atraiu 9,28 milhões de visitantes internacionais, um recorde. O que acha que esses números não estariam mostrando?
Esse recorde que tivemos se deve basicamente ao crescimento do turismo argentino. E isso não se deu por uma estratégia de governo, mas por um gap cambial. Os argentinos representam mais de um terço dos estrangeiros que vêm ao Brasil, e isso praticamente dobrou entre 2024 e 2025.

O Brasil ainda continua com 0,5 voos por habitante e a Colômbia tem 1,1 voo por habitante. Nesse mesmo período de 2019 a 2025, a gente perdeu 85 rotas, a Colômbia ganhou 49. O Brasil hoje tem 600 aeroportos, mas só 60 com voo diário. Não falta aeroporto, né? Falta uma política pública que incentive esse aumento da capilaridade e da distribuição. Se falarmos de cruzeiros, estamos há 15 anos estagnados em 800 mil passageiros.

Como crê que Flávio Bolsonaro pode mudar isso?
O turismo nunca foi uma das grandes pautas do governo de uma forma geral, mas o Flávio sempre teve proximidade com esse tema. Ele foi relator no Senado e conseguiu aprovar a Lei Geral do Turismo, que foi um marco. Eu fiz um breve diagnóstico para ele de como eu vejo o turismo brasileiro carregado nas costas pela iniciativa privada.

Qual foi o diagnóstico que você deu?
Em termos de PIB, o turismo brasileiro está 23% abaixo da média mundial, conforme o WTTC [World Travel & Tourism Council], organização que coordena essa área. Enquanto na média do mundo, o setor representa 10% do PIB, aqui é 7,7%. O Brasil tem um potencial enorme aí, travado por diversas questões.

O país avançou, mas não aparece entre os top 10. Isso é reflexo de diversos fatores, mas um dos principais é a descontinuidade. O Ministério do Turismo foi criado há 23 anos, e nesse período teve 22 titulares, contando os interinos. Você imagina uma empresa com 23 anos e 22 CEOs?

No último governo Lula tivemos três ministros do Turismo, mas no governo de Jair Bolsonaro, pai de Flávio, também foram três.
Eu não posso falar pelo Flávio. O que eu sei é que, num governo ou numa empresa, para que você tenha resultado consistente, você precisa ter um plano estruturado de longo prazo, o que eu apresentei.

O que foi apresentado?
Eu apresentei um pouco desses números e prontifiquei a ajudar. É um plano de dez anos, porque muita coisa não se resolve em quatro anos.

Em primeiro lugar, é preciso de gestão por quem conhece o negócio, que seja profissional e competente, igual ao de uma empresa. Precisa de algum orçamento, que dê um retorno adequado em cada vertical em que você investe. Isso tem de ser calculado e ter retorno definido com KPIs [indicador-chave de desempenho], que meça o quanto retorna para o destino, o quanto gera de emprego e distribuição de renda.

Tem de haver uma interlocução mais unificada do segmento de turismo. Hoje existem 48 associações registradas no Ministério do Turismo. Como a gente vai fazer interlocução com 48 associações? Então precisa ter uma criação de um órgão, como a CNI [Confederação Nacional da Indústria].

Qual foi a recepção dele ao plano?
Foi muito positiva. Ele olhou, teve muito interesse. Ele se comprometeu, não com o plano em si, porque tem muita coisa que depende de outras áreas, de interlocução. Mas se comprometeu a dar uma atenção especial. É um plano bastante denso, com 90 páginas.

Sobre o que fala o seu plano?
Ele é organizado em cinco pilares: infraestrutura no destino, segurança no destino, infraestrutura de portos, infraestrutura aeroportuária e ligação regional.

Cerca de 85% das viagens domésticas no Brasil ocorrem por via terrestre, então infraestrutura no destino é fundamental. Assim como é importante ter segurança: 47% dos estrangeiros que consideraram visitar o Brasil nos últimos anos não o fizeram por medo da violência. A gente precisa de uma polícia específica para turismo, bilíngue e que funcione 24 horas, atuando dentro de zonas especiais, como fez o México.

Terceiro, a parte de portos: hoje, custo do embarque em Santos por passageiro é 40% maior do que na Flórida, porque não existem terminais específicos para turistas. É tudo misturado com carga. Com concessões específicas, você vai lá fazer um investimento privado para atrair navios melhores e mais novos para o Brasil. E tem de haver uma infraestrutura adequada de aeroportos e uma política real para aviação regional

Mas Flávio Bolsonaro também fala em tesouraço. Será que ele não pode acabar com o Ministério do Turismo?
Ele vai ter um trabalho duro porque vai pegar um país numa situação fiscal bastante difícil. Mas a vida também é feita de prioridades, né? A gente aqui está pensando a longo prazo. O turismo não é um negócio em que você põe um real hoje e tem retorno amanhã.

Ele se mostrou disposto a colocar o turismo como uma das principais bandeiras dentro do plano de governo, porque realmente tem um potencial enorme para ser destravado em PIB, em crescimento de empregos, em distribuição de renda. Principalmente no Nordeste, que é uma região que tem pouca diversificação da economia e depende muito mais do turismo do que o restante do Brasil.

Flávio Bolsonaro também foi o relator da chamada PEC das Praias no Senado, que transfere terrenos para proprietários privados. Como encara essa possibilidade?
Isso tem de ser avaliado a partir de benchmarks mundiais, o que deu certo, o que funcionou, o que não funcionou. Eu não tenho ainda uma posição formada exatamente sobre essa questão. Eu acho que a gente ganha aprendendo com o que outros países vencedores já fizeram, adaptando tudo à realidade brasileira. Acho que privatizar todas as praias, com certeza, é impossível.

Existe alguma política específica do Lula 3 que você consideraria acertada e que deveria ser mantida eventualmente?
Uma das coisas positivas foi essa abertura do mercado para que outras companhias aéreas pudessem atuar aqui. Essa abertura foi uma decisão acertada. É claro que você tem mais evoluções ainda. Está na linha do que eu apoio e que acho que deve ser ampliado.

Fonte: Folha de S.Paulo

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