Os delírios que o ar rarefeito causa

É preciso escolher: você pode andar ou falar. Um ou outro. Pois fazer as duas coisas ao mesmo tempo passa a ser uma atividade de risco, asfixiante. Quase um esporte radical, quando se está a quatro mil metros de altura e falta oxigênio.

Reencontrei esta sensação há poucas semanas, viajando para o Vale Sagrado dos Incas, no Peru. Saindo de Lima, no nível do mar, em poucos minutos de avião estava em Cusco (3.400 metros acima); e dali para o conjunto arqueológico de Moray (onde visitaria o restaurante Mil, de Pía León e Virgílio Martínez), mais alto ainda, 3.600 metros acima de nossa cidade de origem.

Guiados pelos chefs e pela codiretora Malena Martínez, ainda subimos ladeiras com membros locais do projeto Mater, que eles lideram ali. Longa e incrível história, a ser contada direito aqui na Folha. Mas, no momento, respiro fundo para lembrar outro aspecto —o ar rarefeito, quem sabe componente inspirador (com a ironia do termo) da criativa civilização que ali vicejou um dia.

Se nunca esteve por lá, imagine como é revelador que já no aeroporto de Cusco haja tanques de oxigênio para os recém-chegados. Notei isto em minha primeira (e tardia) viagem à região. Em 2011, de Cusco fui a Machu Picchu, descendo mil metros, o que nada alivia para quem não está aclimatado ao ar rarefeito.

Já naquela viagem cogitei sobre os efeitos da hipoventilação na imaginação. Já tinha assuntado o tema anos antes, bebendo ayahuasca na Amazônia —infelizmente, não numa comunidade indígena, mas num grupo cristão que subvertia os rituais telúricos originais travestindo-os em cerimônias enxovalhadas por puritanismo galopante e chatérrimos “hinos”, musiquinhas medíocres repetidas à exaustão, glorificando personagens bíblicos estranhos às crenças da floresta.

Isso tudo com dancinhas que lembravam mais uma polca europeia do que ritos amazônicos. O chá me produziu efeitos alucinógenos (além de enjoos dignos de um maremoto), mas não vi nenhum jesus-josé-maria das cantorias dos crentes.

Alegando enjoo, fiquei sentado e calado, apesar do assédio dos fiscais do ritual. Imaginava que, dançando horas a fio e cantando sem parar, a oxigenação daquelas pessoas ficava prejudicada, o que, somado à ação da ayahuasca, deveria produzir a alucinação que se quisesse, até mesmo dos personagens bíblicos forasteiros.

E na altitude dos Andes? O que produziria o ar naturalmente rarefeito neste caso? Aparentemente, por milênios levou nossos antepassados de lá a poupar energia, usá-la com parcimônia e sabedoria, a ponto de criar, em situações inóspitas, sistemas de pesquisa agrícola de extrema sofisticação, dos quais Machu Picchu ou Moray são testemunhos.

E, claro, alimentaram também os mitos e religiões, mas que não são privilégio da altitude, apenas testemunhos da ignorância (e rica imaginação) humana.

Eu mesmo, saindo de Machu Picchu, julguei ver coisas do além. Após longa visita, fugindo da chuva que começava, fui chamado por dois vultos que pareciam saídos de alguma distopia espacial, ou de um sonho alucinógeno.

De perto, vi então que pertenciam a uma tribo estranha, mas não alienígena —a dos chefs de cozinha. Vestidos com capas de chuva coloridas que lhes cobriam as faces, estavam ali o peruano Gastón Acúrio, que por seu trabalho de cozinheiro, pesquisador, agregador de todas as pontas do fazer gastronômico, é de longe o chef mais importante da América Latina; e o espanhol Ferran Adrià, o principal chef deste século até agora.

Estavam ali em carne e osso. Não era, portanto, uma pegadinha do ar rarefeito. Mas parecia.

Fonte: Folha de S.Paulo