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Por trás de todo prato, uma história

Nas últimas semanas, provei comidas estupendas em quatro países pelo mundo, o sonho de qualquer viajante com uma quedinha para a boa mesa. Ainda no modo 2x, segue uma lista rápida do que passou recentemente pelo meu garfo.

Carneiro assado (Casa Lavanda, Turquia); espetinho de língua com panceta (Bar Elementar, Lisboa); escabeche de mexilhões e gazpacho (Cocina Hermano Torres, Barcelona); cozido à portuguesa (preparado por Tereza, mãe do chef Pedro Pena Bastos, do Broto, Lisboa); manti de carneiro com iogurte defumado (Østre, Istambul); melt de carne maturada (Ácido, Buenos Aires); yakitori de pele de frango com tartar de camarão (Suru, Barcelona); raspado de presa de vaca arouquesa (O Canalha, Lisboa).

Não é uma lista completa, mas te dá a ideia da avalanche de sabores que me atravessou recentemente. E o que ficou de tanta fartura?

Bem, os sabores certamente estão gravados na minha memória. Mas para além do que eu degustei, as lembranças verdadeiras são das pessoas por trás dessas comidas.

Não foi à toa que citei a Tereza ao falar do tal cozido português de Pedro Pena Bastos. Não fosse eu ter sido apresentado a ela na sua cozinha enquanto ela tirava a pele da alheira (“fica mais bonita para servir”, justificava ela), talvez eu nem tivesse apreciado tanto assim o almoço em Moreiras Pequenas, interior de Portugal.

E ainda: o bom humor do João Magalhães Correia (Bar Alimentar); a infinita hospitalidade de Emre Sen (Casa Lavanda); a espontaneidade do João Rodrigues (O Canalha); a energia do trio do Suru (Gemma, Cherly e Sergi); a inesperada informalidade dos irmãos Torres por trás das três estrelas Michelin do Cocina. E a boa conversa do chef Juan Gaffuri, na semana passada em Buenos Aires.

Retornei à capital argentina desta vez à convite do hotel Four Seasons, que em si já me fez viajar com as expectativas nas alturas. Você imagina… O serviço, impecável. Os quartos, sedutores —e não vamos nem começar a falar dos aposentos na mansão original do hotel onde se hospedou Rosalía, Dua Lipa… E aí tinha os restaurantes.

Os nomes do Elena e do Nuestro Secreto já estão nas prioridades de quem passa por Buenos Aires. Mas eu não conhecia o chef por trás deles.

O Four Seasons tinha programado um tour de “cocina porteña”, com Gaffuri. Sair pela cidade provando sabores típicos da capital. Primeiro, uma empanada no La Cocina, escondida ali no bairro da Recoleta. Era só uma portinha na avenida Pueyrredón —e por mim teria comido lá o dia inteiro!

Mas ainda teve pizza no Güerrín, sorvetes no Cadore e um almoço no Los Galgos, um bistrô com quase 100 anos, onde provei vermutes excelentes, um croquete de cogumelos que beirava a perfeição e os clássicos ovos mexidos com batata palha. Foi incrível? Põe incrível nisso. Teria sido tão bom sem a companhia de Juan Gaffuri? Aí eu duvido.

No mesmo dia, jantando no Elena com o chef, trocando com ele notas gastronômicas das nossas viagens, tive a certeza de que tudo que provei nessas semanas frenéticas à mesa não faria o menor sentido se não fossem as histórias das pessoas por trás deles. De preferência, escutadas na velocidade 1x

Fonte: Folha de S.Paulo