Salvador Capital Afro passa longe do protagonismo negro

Em 472 anos, Salvador nunca foi governada por um prefeito ou prefeita negro eleito democraticamente. A capital da Bahia tem 82% de sua população de pessoas negras, maior percentual do país. É o racismo estrutural tirando da maior parte da população o poder político e também o econômico.

As políticas públicas para as gentes pretas de Salvador são feitas ainda hoje por pessoas brancas. O turismo na cidade preta tem também uma ótica branca. Para nós que trabalhamos com afroturismo sempre foi um sonho ter os governos e empresas investindo nesse movimento dentro do turismo, que até então estava escanteado das políticas públicas.

O Salvador Capital Afro, programa promovido pela Prefeitura de Salvador que se define como “movimento de fortalecimento da cultura afro de Salvador” e conta com aporte de R$ 15 milhões do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), é um grande sonho que começou a virar pesadelo à medida que o programa avançava, por não ter negros no centro das decisões.

O atual prefeito de Salvador, Bruno Reis (União Brasil), se declara pardo, assim como seu padrinho político ACM Neto, mas não tem ascendência africana conhecida e nem é lido como negro na sociedade. Neto, como é conhecido, tentou em sua candidatura ao governo da Bahia fazer um uso político da pauta, que está “na moda”, mas não colou, virou meme e ainda perdeu as eleições.

Ainda assim, Salvador é a única capital do país que tem uma Secretaria Municipal da Reparação (Semur) e não da igualdade ou diversidade. Também é a única pasta com número significativo de pessoas negras e foi parte importante para o projeto sair do papel. Conquista do movimento negro local, que fique claro.

O programa Salvador Capital Afro foi feito por meio de edital, teoricamente uma via democrática de seleção de projetos. Mas o poder econômico fez mais uma vez com que empresas de pessoas brancas vencessem as principais concorrências.

O programa foi formatado com três pilares: o Salvador Capital Afro (eventos de valorização e fomento da economia criativa preta da cidade e marketing), o Afrobiz (plataforma para empreendedores negros) e o Rolê Afro (desenvolvimento de roteiros turísticos afrocentrados).

Entre as empresas selecionadas pelo edital para o Rolê Afro, por exemplo, estão as italianas Target Euro e Artès. Cada um dos tripés do programa tem uma atuação e a política toda é gerida pelo Programa Nacional de Desenvolvimento e Estruturação do Turismo (Prodetur), que mais uma vez tem pessoas não negras à frente do projeto.

O Afrobiz fez o cadastro de afroempreendedores, eventos e consultorias. No site, copiou algumas reportagens produzidas por nós, do Guia Negro, sem dar os créditos. Notificados, pediram desculpas e tiraram os conteúdos do ar.

Não houve remuneração pelo uso do material e o programa não prevê ainda verba para a mídia negra, que cobre assuntos como esse e costuma ser excluída de planos de mídia de grandes projetos. A mídia negra não poderia ter ficado de fora desse plano. Mas ficou. E assim, a história segue sendo contada na perspectiva do colonizador, com a mídia tradicional branca comprando a narrativa da produção do evento, sem nenhuma perspectiva e perguntas críticas.

Quando o Salvador Capital Afro foi lançado, o Guia Negro foi convidado para o lançamento como mídia. Até aquele momento nenhum ator que trabalha com afroturismo havia participado das mesas, decisões, dado consultoria ou ajudado a gestar o programa.

Escrevemos que não dava para fazer afroturismo sem quem faz afroturismo. E vimos a terceira parte do programa que desenha novos roteiros turísticos ser pré-anunciada como um nome muito parecido com o nosso, que também realiza esse trabalho. Ressaltamos em reuniões com a Prodetur e Semur que não ia dar para nos copiarem mais uma vez. O programa ganhou o nome, então, de Rolê Afro.

Foi o suficiente para sermos considerados persona non grata nos diversos eventos que fizeram, sem nos convidar para mesas ou enviar releases de anúncio.

O Festival Salvador Capital Afro, que começou nesta quarta (30) e vai até o 4 de dezembro, não tem o Guia Negro entre os seus debatedores. Alguns dos principais nomes do setor só entraram no evento após intervenção de quem atua na área. De forma geral, o festival privilegiou startups de ar-condicionado à aquelas que fazem trabalho de base, na rua, que contam histórias que a história oficial não conta, como é o nosso caso.

De acordo com o consórcio, que está à frente do Salvador Capital Afro, todos os contratos das ações de implementação do Plano Afro têm como regra contratual a composição de equipe com pelo menos 60% de pessoas negras. “É importante destacar também que a maioria de pessoas negras atua em posições de liderança”, diz em nota, desconsiderando que as empresas pertencem a pessoas brancas.

Já a ausência do Guia Negro nas mesas de debates do festival é justificada pelo convite que se restringiu a uma mentoria destinada a 15 novas empresas do setor. “Cabe destacar que na programação há diferentes iniciativas de afroturismo de todo o país, contemplando a diversidade de atuações do segmento”, informa.

O manifesto de Afroturismo feito por nós, que define o movimento como afeto, afronta e futuro, não estará, no entanto, presente. A afronta, nesse caso, foi o que nos tirou do evento. Tiveram medo de nos ouvir.

Mas terão que nos ler e temos algumas perguntas. O consórcio tem medo do debate que a gente provoca? Como construir políticas públicas sem ouvir críticas? Por que só há empresas chefiadas por pessoas brancas no processo? Haverá sinalização turística dos lugares de cultura e história negra? Como se dará a valorização das baianas, símbolo da cidade, mas sempre renegadas pelo poder público no dia a dia? Qual será o papel dos blocos afros nessa política?

E continuo: Quando as mulheres negras (baianas de acarajé e trancistas) terão um lugar para elas no Pelourinho? Haverá educação patrimonial para os guias pararem de replicar histórias com narrativas eurocêntricas? Haverá investimento para construir monumentos em homenagem a pessoas negras? Pessoas negras ganharão homenagens em nome de ruas e praças, assim como pede o movimento pela Rua Alaíde do Feijão?

No fundo, o Salvador Capital Afro mostra que quer os negros naquele lugar apenas de executores. É uma política para nós, que não foi pensada, nem faz a grana circular na nossa comunidade (a tal da reparação pela qual tanto lutamos e temos direito).

Muitos dos negros contratados reclamam justamente dos valores que estão recebendo. Lembramos que o movimento que fazemos é chamado de afroturismo, não turismo étnico, como foi no passado. Salvador está bem distante de ser Wakanda, mas é a capital afro do Brasil, com toda a potência e racismo que isso implica.

Fonte: Folha de S.Paulo

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