Sem reservas ou cartão de crédito, casal de mochileiros relembra como era viajar em 1985

Perrengue, segundo o dicionário Houaiss, é o mesmo que situação complicada, difícil de ser resolvida. No mundo das viagens, muitos usam a palavra quando o pneu fura, chove no passeio ou tem uma fila enorme em alguma atração turística. 

Julio e Rosi Moschen, hoje proprietários de pousadas em Campos de Jordão, têm umas tantas histórias de experiências complicadas em suas viagens. Ainda mais porque o primeiro mochilão deles foi em 1985, na Europa. Você consegue imaginar como era ir até o Velho Continente nos anos pré-internet?

Os dois, que haviam se conhecido em 1979, se casaram seis anos depois e fizeram do mochilão uma espécie de lua de mel. Detalhe: eles viajaram com a irmã e o cunhado de Julio.

A importação de produtos, durante a ditadura brasileira, era reduzida, o que obrigou o casal a viajar com equipamentos nacionais. “A mochila que existia aqui era aquela de lona verde, do Exército, com uma armação de alumínio que ficava nas costas”, relembra Julio.

Enquanto ele carregava essa, Rosi levava uma mala de rodinhas. Bem, não exatamente. “Era uma mala de lona, antigona, e a gente colocava num carrinho metálico que amarrava com cordinha”, explica ela.

Lá, viram como era diferente a vida do viajante europeu, que usava “aquela mochila certinha, magrinha, da largura do corpo”.. E isso influenciava na hora de pegar o trem. Enquanto os estrangeiros andavam entre as fileiras sem esbarrar nos outros, o casal precisava fazer ginástica. “Tinha que tirar a mochila, colocar no chão e entrar com ela de lado, porque ela era mais gorda que a fileira.”

Rosi e Julio, então com 23 e 28 anos, fizeram essa primeira expedição juntos sem hospedagem prevista. “Para fazer reserva no hotel, tinha que ligar para lá, falar a língua do lugar. Na década de 1980 o inglês ainda não era dominante como é hoje, que qualquer um em um hotel da França, da Itália, fala inglês”, explica ele. Para se comunicar, o casal levou um dicionário de seis idiomas. 

Outro item que eles levaram na bagagem foi o livro “Europa a 25 dólares o dia”, de Arthur Frommer, o papa dos livros de viagem, segundo Julio. “Era a bíblia de todo mochileiro da minha época.”

O americano, em sua juventude, viajou bastante pelo Velho Continente e elaborou o guia com dicas de onde se hospedar, se alimentar e o que visitar e ver em várias cidades. E tudo isso com um orçamento de US$ 25 diários. Ele atualizou a obra por anos e, obviamente, teve que adaptar o orçamento diário. 

O livro norteou Julio, a esposa, a irmã e o cunhado. Para passar os 21 dias de viagem, eles foram com US$ 2.000 no bolso. “Não tinha cartão de crédito internacional, para viajar era o ‘cash’. A gente levava dinheiro contado e torcia para que não acontecesse nenhum imprevisto”, relembra Rosi. 

E a situação econômica e política no Brasil era tão complicada que quem viajava para o exterior precisava recorrer ao câmbio paralelo para conseguir mais moeda estrangeira do que o governo permitia.

Para economizar, os quatro ficavam juntos em quartos de hotéis, muitas vezes sem banheiro no mesmo cômodo. Outra forma de baratear os custos era viajar em trens noturnos, e assim deixavam de gastar com hospedagem. Mas, segundo Julio, era difícil descansar e a experiência não era segura. E, mesmo assim, ainda utilizaram esse método seis vezes.

A expedição deles englobou Espanha, França, Mônaco, Itália, Áustria, Alemanha, Suíça e Reino Unido. “A gente viajava como se fosse a única vez da sua vida, tinha que conhecer o maior número possível de países”, explica ele. 

Muitos países é sinônimo de muitas moedas. Assim, quando entravam em um local novo, se viam obrigados a fazer conversões e, consequentemente, perdiam dinheiro em taxas e cédulas de pouco valor. No fim, o orçamento diário acabava ficando abaixo dos US$ 25 previstos por pessoa.

Com tanto perrengue, é provável que muita gente mudasse o estilo de viagem, certo? Eles não. Preferiram manter o ritmo e fizeram um segundo mochilão para a Europa, em 1989, quando Rosi estava grávida de seu primogênito.

Nesses quatro anos eles foram algumas vezes para os EUA e compraram outra mochila, aposentando o modelo do Exército, usado em 1985. Agora, Julio levava um tipo mais confortável, enquanto Rosi usava uma versão menor, já que estava grávida.

A segunda expedição ao Velho Mundo envolveu Suíça, Itália, Grécia e Áustria, na mesma pegada de gastos reduzidos. Foi em terras gregas, inclusive, que eles pilotaram uma moto sem farol, apenas com luz de freio, à noite e na beira de um precipício. Para ficar mais seguro, eles iam pelo acostamento na contramão. Acho até que esse tipo de perrengue deveria inclusive constar no exemplo do Houaiss.

Após a viagem de 1989, ficaram um bom tempo sem colocar o pé na Europa. Veio o segundo filho e Rosi e Julio se dedicaram a viajar pelos EUA, pois viam mais opções de entretenimento e infraestrutura para a família toda.

Só em 2007 eles se organizaram para visitar o Velho Continente novamente. A intenção original era que os filhos adolescentes fossem juntos, todos com mochila nas costas. Mas a ideia não foi bem recebida pelos jovens, que preferiram passar as férias na casa de amigos.

O casal até considerou o uso de malas, mas um vizinho, com idade próxima a deles, botou pilha sobre viajar de mochila. “A gente já é tiozinho, será que a gente ainda é mochileiro?”, se perguntaram. No fim, adotaram a marca Tiozinhos Mochileiros e partiram. “Redescobrimos como é legal viajar assim”, diz ele.

Rosi e Julio têm 59 e 65 anos, respectivamente, e uma situação financeira confortável. Mesmo assim, eles ainda viajam com mochila nas costas, cada uma com 8 kg e cheias de conselhos.

Ele recomenda, por exemplo, não levar camisa polo, por ser mais pesada e difícil de secar. E como lavar? “Na pia do banheiro. Põe o sabãozinho do hotel, xampu, deixa de molho na água quente, sai para jantar ou passear, volta, enxuga e pendura. No dia seguinte está seco.” 

Se não secar, Julio recomenda embrulhar no plástico, guardar na mochila e pendurar no próximo hotel. “A dica é torcer a roupa dentro da toalha, aí ela não fica pingando e seca rápido”, completa Rosi. E, se possível, levar corda de nylon para usar como varal.

Não sei a sua, mas a minha meta da vida foi redefinida após conhecer os tiozinhos mochileiros.

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Aviso aos passageiros 1: Além de um canal no Youtube, eles bateram um longo papo no podcast Mochileiros sem Pauta, que eu já recomendei por aqui

Aviso aos passageiros 2: Reuni algumas dicas para fazer seu primeiro mochilão. Inclusive, relato como foi a minha primeira viagem com a mochila nas costas e todos os perrengues no livro “Embarque Imediato” (O Viajante, R$ 39,90, 180 págs.)

Fonte: Folha de S.Paulo

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