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Tudo menos o Big Ben

Quando me apaixonei por Londres pela primeira vez, por aqui fazia sucesso uma banda que me salvou espiritualmente chamada Everything But The Girl —Tudo Menos a Garota, numa tradução apressada. Quarenta anos depois estou de volta à cidade e novamente ela vem me socorrer.

Desta vez, porém, a salvação é menos espiritual; é mais uma inspiração. Os fãs do Everything But The Girl, originalmente o slogan de uma loja que vendia tudo para a casa (menos a “garota”), talvez imaginem que estou me referindo a “Missing”, sucesso mundial da banda em 1995.

Seria fácil adotar o refrão da música, que fala sobre saudade, para evocar uma cidade que não visito há tanto tempo. Mas prefiro usar o nome do EBTG, o apelido do duo formado por Tracey Thorn e Ben Watt, como uma metáfora da Londres que reencontro agora.

Tudo está diferente, dos bares e restaurantes que eu costumava frequentar ao próprio espírito das ruas londrinas. Sim, entre minha última visita e esta, tivemos uma pandemia. Sem contar o Brexit, um punhado de reviravoltas na coroa britânica, estripulias políticas, entre outras mudanças.

Mas, mesmo levando tudo isso em conta, não posso esconder que fiquei chocado com as diferenças que encontrei na cidade a que eu costumava vir ao menos duas vezes por ano. É como se tudo tivesse mudado, menos no Big Ben.

Quando visitamos um lugar com muita frequência, inevitavelmente criamos um ritual cada vez que passamos por lá. Chamemos o fenômeno de “rotina turística”.

Você se apaixona por um menu, por exemplo, e quer sempre comer lá. Naquela loja onde um dia você comprou um disco que mudou sua vida, digamos “Eden”, do EBTG, você sempre volta e leva outro na esperança de uma nova revelação.

Um souvenir de lua de mel comprado em Convent Garden te faz sempre voltar naquelas arcadas para reviver tal emoção. Passar por um pequeno, mas importante, lugar de arte, como a Serpentine Gallery, tem um caráter quase sagrado, como conferir que artista está no grande hall do museu Tate Modern.

Tem a loja de descontos de uma grife famosa, tipo Paul Smith, onde você sempre compra uma coisinha. E a livraria onde sempre negocia mentalmente o que vai levar para não pesar muito na sua bagagem.

Não duvide: fui lá conferir tudo isso. Só que as coisas estavam ligeiramente diferentes.

Sim, fiquei surpreso com a sudanesa Kamala Ibrahim Ishag que expõe atualmente na Serpentine. E pirei com Cecília Vicuña derramando sua arte sobre mim no Turbine Hall.

Almoçando no Busaba, vi que o cardápio tailandês mudou radicalmente (para melhor?) e comprei pelo menos dois álbuns na Sounds of the Universe, uma sobrevivente no mercado musical ali no Soho.

Não levei CDs, que praticamente sumiram de suas prateleiras, mas vinil: um do Sault e outro do Gabriels, fazendo a ponte entre nostalgia e presente. E, na “sale shop” do Paul Smith, fiquei chocado ao saber que não se pode mais ter o desconto “tax free” nesta nova Inglaterra.

No pedestal mutante de Trafalgar Square, um artista do Malawi, Samson Kambalu, desafia almirante Nelson em sua coluna, mas meu caminho até lá não permitiu que eu encontrasse nenhuma livraria, nem mesmo a tradicional Stanford, especializada em viagens, agora vendendo roupas da grife holandesa Scotch & Soda.

Ainda estou tentando entender o que aconteceu. Mudou Londres, ou mudei eu? A cidade, sim, é outra. E esse seu visitante? Será que ele percebe que se transformou?

Ainda tenho alguns dias aqui para procurar respostas. Enquanto meus olhos procuram discos voadores pelo céu. “Green grass, blue eyes, gray skyes, God bless.”

Fonte: Folha de S.Paulo