Vai sextar um ano novo?

Viagens de trabalho são muitas vezes solitárias. Estar sozinho num bar ou restaurante é comum —e aí a gente aproveita para observar as conversas e delas aprender um pouco mais sobre onde estamos.
Naquela mesa perto da janela, por exemplo, o casal conversa com certa animação. Ele fala muito, e é principalmente sobre cinema, enquanto ela lhe faz contraponto com referências aos livros que tem lido.

No século passado, o ambiente estaria enevoado por nuvens transparentes de tabaco e ambos estariam tragando cigarros mesmo entre as garfadas. O que segue imutável é que na conversa há um entusiasmo intelectual que vibra na atmosfera ao redor e que a moça, vestida com simplicidade, consegue fazer-se elegante com quase nada —um discreto batom encarnado, um lenço delicado jogado com aparente (só aparente) displicência no pescoço, como só se vê em Paris.

Numa mesa mais central, quatro amigos falam em volume de comício. Não são desafetos, mas esgrimem argumentos contrários e debatem com entusiasmo que beira o fanatismo. A língua, e especialmente o sotaque local, tem a dramaticidade que impregna também a música típica, uma inelutabilidade trágica e que parece vir do berço.

São intensos, são politizados como a civilidade exigiria de todos os povos, embora pareçam pouco abertos a serem convencidos de algo, por mais contundente que seja a argumentação dos amigos: as convicções são tão sanguíneas quanto a matéria-prima do “asado” que dividem nesta parrilla de Buenos Aires.

Falar alto não é sua exclusividade. Fora, no terraço, um grupo maior brada felicidade entre taças de vinho. O assunto não são agruras da política, são as alegrias da vida. Olhares sedutores chispam sobre a mesa para moços e moças que os recebem com naturalidade (flerte não é necessariamente assédio, eles sabem).

Lembranças de viagens memoráveis e planos para as que virão são os itens do cardápio, festejados com gestos expressivos. As vozes altas não incomodam porque, como já dito, eles ocupam mesas nas calçadas, onde bebem, comem e se confraternizam mirando a praça antiga das tantas que ornamentam Roma.

Risadas altas também brotam da mesa com uma dezena de pessoas, mas algo parece não transmitir verdadeira alegria. É final de expediente, colegas de trabalho confraternizam diante de muitos copos. Dos trajes formais, as gravatas já deslizaram para o bolso dos paletós, que por sua vez descansam desleixados nas cadeiras.

O grau etílico sobe rapidamente, mas acompanhado por petiscos atraentes, até sofisticados para um bar. É um pequeno alívio para a turma que, na verdade, ri por encomenda: foram convocados pelo chefe para beber e, na tradição local, não se diz não ao superior. Até no Japão, onde a comida é tão boa e tão reverenciada, há momentos tensos como estes num izakaya de Tóquio, próximo da firma.
Em contraste com a falsa alegria de um povo tenso, em outra mesa há conversa tensa apesar de um povo alegre.

Conversas leves do cotidiano ou brigas amigáveis sobre futebol perdem terreno para uma amargura crescente. O inconformismo azeda a cerveja: “Mas o cara é médico e adia vacina das crianças, como pode?”; “quem dirige a entidade antirracismo é racista declarado!”; “o cara é a cara dos milicianos que a família dele protege, como deixamos virar presidente?”. Alguém repete, “chega de política, vamos nos divertir”, todos concordam, mas, antes da próxima rodada, o assunto volta.

Até a alegria do boteco nós brasileiros estamos perdendo. Mas o ano acaba nesta sexta-feira, e lá vem 2022. Será que vai sextar um novo ano no Brasil, finalmente?

Fonte: Folha de S.Paulo

Marcações: