Viagem de volta, não de ida

A “abertura dos portos” para os brasileiros, que lentamente se amplia, vem colocando aos viajantes saudosos a necessidade de tomar uma doce decisão: (re)começar por onde? Em qual porto atracar primeiro?

O dilema não é só alegria: viajar requer dinheiro, que vem escasseando para a maioria da população. Para piorar, o preço das passagens aéreas está subindo estratosfericamente (junto com gás, eletricidade, gasolina –sem falar na comida).

Mas sonhar continua sendo de graça. Além disso, muita gente que até agora sobreviveu economicamente às duas pragas simultâneas do Brasil (pandemia e Bolsonaro) gastou muito menos dinheiro em lazer nos últimos dois anos, e se põe a pensar em como utilizar estas economias na estrada.

Aonde ir, então? Por onde começar? Quem tem familiares vivendo longe não pensa duas vezes –hora de rever os entes queridos, portanto é neles a primeira escala.

Eu pertenço a outra categoria, a dos viajantes profissionais. São compromissos de trabalho que pautam meus roteiros em primeiro lugar. Então, não cabe muita escolha. Por sorte, os primeiros portos à vista, no Brasil e fora, são de lugares de que gosto.

Tenho, no entanto, refletido sobre estas escolhas. Viajo a trabalho, mas, e quando for tirar férias, passear… onde seria? Não se trata do lugar em si, mas o tipo de lugar, que ultimamente tenho dividido em dois universos: os lugares que conheço e quero rever, e os desconhecidos, que quero desbravar.

E, pensando nos dois, sinto meu coração emitir sinais do passar do tempo, de uma acomodação morna –e nada incômoda, ainda por cima— que, do alto do mastro de uma vida navegante, se inclina a virar a luneta para trás, saudoso dos lugares queridos.

Se tiver que escolher agora aonde ir… voltar ao porto seguro ou desbravar mais um destino?

Ainda tenho muitas viagens pela frente, e certamente elas se distribuirão entre as duas categorias. É, portanto (por enquanto), uma questão mais intelectual (ou emocional) do que prática.

Mas, depois de uma vida ansiando conhecer novos lugares, me surpreendi por esta sensação de que talvez, se houvesse uma só escolha, uma última escolha, eu hoje me inclinaria por revisitar, no lugar de explorar.

Minha velha curiosidade não está esgotada, por sorte. No trabalho, tenho inventado sem parar, mesmo às vezes correndo riscos; e, nas viagens, ainda tenho esta sede do desconhecido.

O último novo lugar que visitei, antes da pandemia, foi Singapura, e não posso reclamar do que conheci do modo de vida peculiar do lugar, misturado a uma aura cosmopolita e uma gastronomia ímpar.

Também estive na Espanha, na Catalunha, minha velha conhecida, mas desta vez para uma região que não havia visitado –o Priorato, com sua natureza rústica e vinhos maravilhosos, nada a reclamar!

Mas, depois disso, ainda fui, antes do fechamento do mundo pela Covid-19, e sempre rapidamente, para outros locais familiares –Buenos Aires, Bogotá, Montevidéu, Amsterdam (de onde guardo memórias várias, inclusive afetivas), Lima.

Paisagens conhecidas, encontrando pessoas também conhecidas, embora também não tenham sido escolhas minhas –os destinos (ou pautas) me escolheram.

Por outro lado, perambulando pelo mundo onde o vento do trabalho me leva, não vou a Paris há três anos. E percebo hoje que isto faz falta. Além de Paris, lugares tão diferentes como São Francisco ou Tóquio, onde estive algumas vezes, mas poucas, vivem na minha cabeça, insistindo em que é hora de voltar.

É o que eu faria, creio, se fosse a última viagem. Seria algo como uma viagem de volta, não de ida. Ao encontro não do novo, mas do que de mim mesmo ficou na memória e no coração, encravado naquela cidade. Às vezes, conhecer é reviver.

Fonte: Folha de S.Paulo

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