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- Author, João Fellet
- Role, Da BBC News Brasil em São Paulo
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Quando Jair Bolsonaro (PL) se elegeu presidente, em 2018, as Forças Armadas ocuparam um papel na política que não desempenhavam desde o fim da ditadura militar, em 1985.
Ele próprio um capitão reformado do Exército, Bolsonaro se cercou de assessores militares, teve um vice oriundo do Exército (Hamilton Mourão) e recorreu às Forças Armadas em vários momentos de crise, como quando nomeou o general Eduardo Pazuello para a chefia do Ministério da Saúde em meio à pandemia de Covid-19, em 2020.
Um levantamento do Tribunal de Contas da União (TCU) apontou que 6.157 militares da ativa e da reserva ocuparam cargos naquela gestão.
Quatro anos após o fim do governo Bolsonaro, os militares hoje estão de volta aos quartéis — e, entre os da ativa, opiniões políticas deixaram de ser expressas em público ou nas redes sociais.
Em entrevista à BBC News Brasil, o cientista político João Roberto Martins Filho, professor titular da Universidade Federal de São Carlos (Ufscar), diz que a mudança é positiva e tende a ser mantida mesmo que Flávio Bolsonaro (PL) vire o próximo presidente.
Segundo ele, a forte votação obtida por políticos bolsonaristas no primeiro turno da eleição mostra que o movimento “não precisa mais dos militares” para eleger candidatos nem para governar. Além disso, Martins Filho afirma que as Forças Armadas vão querer manter distância do governo depois da experiência que tiveram na gestão Bolsonaro.
“Foi extremamente negativo [para as Forças]”, diz Martins Filho, listando ocasiões em que, segundo ele, Bolsonaro submeteu os militares a “uma vergonha atrás da outra, até chegar ao vexame maior, que foi expô-los à tentativa de golpe”.
Professor titular da Ufscar desde 2015, Martins Filho dedicou sua trajetória acadêmica ao estudo das relações entre militares e a política, sendo autor de livros como O palácio e a caserna (1995) e Os militares e a crise brasileira (2021).
Entre 1996 e 2016, ele coordenou o Arquivo de Política Militar Ana Lagôa e, entre 2005 e 2008, foi o primeiro presidente da Associação Brasileira de Estudos de Defesa (ABED). No exterior, foi pesquisador visitante nas universidades da Califórnia, Leiden, Oxford e King’s College London.
Confira abaixo os principais trechos da entrevista.
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BBC News Brasil – Como tem sido a relação das Forças Armadas com Lula em seu terceiro mandato?
João Roberto Martins Filho – Aquilo que era comum no governo Bolsonaro, uma quantidade muito grande de generais se manifestando [sobre política], inclusive de dentro do Palácio do Planalto, não aconteceu.
O atual comandante do Exército, o general Tomás Ribeiro Paiva, e o chefe do Estado-Maior, general Richard Fernandez Nunes, prometeram tirar as Forças Armadas da política, e efetivamente isso aconteceu. Os militares da ativa voltaram a fazer o que faziam até 2014.
Mas não há dúvida que não mudou a mentalidade militar. A votação no Flávio Bolsonaro entre os militares foi muito alta.
O que ocorre é que, se você tem um comando firme que determina que não é para se manifestar politicamente, quem está na carreira não vai querer fazer alguma coisa que desagrade o comando. Já no governo Bolsonaro, o comando queria essa participação.
BBC News Brasil – Durante o governo Lula, Donald Trump voltou à Casa Branca, impôs tarifas e sanções ao Brasil e reavivou a Doutrina Monroe, que reivindica o direito dos EUA de agirem até militarmente na América Latina para impor a hegemonia americana. Como os militares brasileiros veem esse novo cenário?
Martins Filho – A situação internacional mudou radicalmente. Em 2022, os EUA mandaram ao Brasil quatro altos funcionários para deixar claro que não apoiariam qualquer quebra da ordem democrática. Isso pesou para que não houvesse um golpe.
Agora, houve uma mudança. Em agosto, houve uma nota intitulada “Os riscos à Nação” emitida pelos três clubes militares, que teoricamente representam os oficiais da reserva — e é bom lembrar que os da reserva muitas vezes representam também o que pensa o pessoal da ativa.
A nota diz que as retaliações comerciais dos EUA poderiam ter sido evitadas por meio de uma condução mais técnica e pragmática pelo governo. É um discurso muito parecido com o do Flávio.
O que mudou muito na geopolítica internacional foi a ascensão da China. Depois que a China começa a crescer, a estabelecer laços maiores com o Brasil e, com o surgimento dos Brics (bloco que agrega países como Brasil, Rússia, Índia, China e outras nações emergentes), volta entre os militares brasileiros uma admiração pelos Estados Unidos e pelas Forças Armadas americanas.
E para eles os EUA voltam a ser uma alternativa preferencial de aliança com o Brasil, inclusive por causa das compras de equipamentos militares americanos. A crítica à China é uma das coisas mais fortes dentro das Forças Armadas hoje.
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BBC News Brasil – Então o discurso de Lula em defesa da soberania brasileira em reação às medidas dos EUA não surtiu efeitos nas Forças Armadas?
Martins Filho – Eu acredito que não, porque basicamente eles não confiam no que o Lula fala. Eles não se alinharam com o Lula nessa crítica.
Eles estão vacinados contra o Lula. Só tiveram que engoli-lo porque as ordens vieram de cima [dos comandos das Forças].
BBC News Brasil – Como se compara a relação atual de Lula com as Forças Armadas com a que existiu nos governos anteriores dele?
Martins Filho – Existia nos meios acadêmicos uma esperança de que o Lula fosse avançar mais na agenda de Defesa, definindo quais são as prioridades de defesa do Brasil e, a partir daí, o que se deve comprar de armamento.
O que o Lula fez no primeiro e no segundo mandato, e faz de novo agora, foi tomar uma decisão política: ele não queria problema com as Forças Armadas e deixou a situação mais ou menos do jeito que estava. Não saímos da situação em que se compram armamentos sem saber exatamente quais são as prioridades da Defesa.
BBC News Brasil – As Forças Armadas veem diferenças entre Jair Bolsonaro e Flávio Bolsonaro?
Martins Filho – A conjuntura é diferente. Flávio vai ter que reafirmar lealdade ao pai e dizer que está cuidando da herança dele, mas também terá que se distinguir em algumas coisas. Acredito que, ao contrário do pai, ele não vai nomear generais para a equipe de governo.
Jair Bolsonaro era um militar, mas um péssimo militar, como disse o ex-presidente Ernesto Geisel. Até 2014, era persona non grata nos quartéis, considerado um agitador e, depois, um político que poderia criar problemas para o comando das forças.
Depois foi se aproximando e virou uma espécie de “um dos nossos” para os militares. Em relação a Flávio, só por ele ser anti-Lula, já é um ponto favorável para os militares. Na hora H, todos eles preferem os Bolsonaros ao Lula.
BBC News Brasil – Flávio diz que, se eleito, quer facilitar o acesso dos EUA a terras rasas e minerais estratégicos brasileiros. Como os militares, que historicamente defendem o controle nacional sobre recursos estratégicos, encaram esse tema?
Martins Filho – No começo dos anos 50, tanto os militares progressistas quanto os pró-americanos tiveram participação importante no debate sobre a nacionalização e a criação da Petrobras. Eu acho evidente que, nos formuladores de estratégias dentro das Forças, esse tema dos minerais estratégicos está sendo acompanhado.
Mas não acho que eles colocariam isso acima das desconfianças que têm da esquerda. O preconceito deles contra o PT é muito grande. Isso ficou muito claro quando, durante as manifestações bolsonaristas na frente dos quartéis, em 2022, algumas pessoas do PT foram negociar a desmobilização dos acampamentos.
Foi muito difícil conseguir que eles aceitassem que estava em jogo a democracia.
No fim, preponderou o bom senso e não houve um desfecho pior. Mas é interessante notar que generais foram para a cadeia por envolvimento na tentativa de golpe e ninguém piou. Não vi os clubes militares saírem em defesa dos que foram presos.
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BBC News Brasil – O quão perto estivemos de um golpe de Estado depois que Bolsonaro perdeu a eleição de 2022?
Martins Filho – Nós estivemos muito perto de uma tentativa de golpe. A coisa foi muito séria mesmo. Se eles estavam dispostos a assassinar o presidente eleito, teriam que enfrentar toda a escolta da Polícia Federal e matar todo mundo.
Poderia ter acontecido uma coisa que não houve em 64: uma divisão das Forças Armadas e um conflito entre os militares.
Eu acho que nós chegamos muito próximos. A coisa se decidiu no Alto Comando do Exército. Alguns generais disseram que não iam apoiar o golpe – cinco deles, que tinham poder para dissuadir os outros, porque eram comandantes do Sudeste, do Sul e do Nordeste. Eles comandavam a maioria do Exército brasileiro.
Ficou claro para eles [golpistas] que não dava para fazer sem apoio majoritário dentro do Exército.
BBC News Brasil – Mas o então comandante da Marinha, almirante Almir Garnier, foi preso e condenado por ter colocado suas tropas à disposição de Bolsonaro para o golpe, segundo a Justiça. Há alguma característica da Marinha que a torne mais suscetível a investidas desse tipo?
Martins Filho – Durante o regime militar, a Marinha foi um dos polos da repressão, com o Centro de Informações da Marinha (Cenimar). A nota dos clubes militares que citei [com críticas ao governo Lula pelas tarifas impostas pelos EUA] é assinada por um almirante [cargo máximo da Marinha]. Então será que, dentro da Marinha, eles ficaram conformados com a prisão do almirante [Garnier]? Eu acredito que não.
Porque o almirante, para fazer o que ele fez, tinha que ter o apoio do Conselho do Almirantado, que equivale ao Alto Comando das Forças do Exército. Acredito que ele foi amparado pela maioria do conselho.
BBC News Brasil – Qual foi o saldo para as Forças Armadas da participação tão intensa de militares, tanto da ativa quanto da reserva, no governo Bolsonaro?
Martins Filho – Foi extremamente negativo. E não foi agora, quando descobriram as articulações golpistas. Foi desde o começo do governo.
Em março de 2019, Bolsonaro expôs as Forças Armadas ordenando que elas comemorassem o golpe de 31 de março de 1964. E daí pra frente foi uma vergonha atrás da outra, até chegar ao vexame maior, que foi expor os militares a essa tentativa de golpe.
Então acho que, se houvesse um pensamento menos ideológico, estava na hora de eles começarem a fazer uma autocrítica de por que se metem nas divisões políticas do país.
Mas, infelizmente, acho que isso não deve estar acontecendo.
BBC News Brasil – Flávio Bolsonaro diz que vai anistiar o pai e os demais envolvidos nas tentativas de golpe, o que também pode incluir os militares condenados. Como essa anistia seria encarada pelas Forças?
Martins Filho – Eu acho que, em geral, eles ficariam a favor dessa anistia. Mas tem gente nas Forças que percebe que esses caras não merecem anistia.
Em 2022, nós vimos oficiais que se posicionaram contra um golpe de Estado, como o Brigadeiro Baptista Júnior [então comandante da Aeronáutica], sofrendo ataques violentos e coordenados, inclusive contra familiares seus. Hoje se sabe que o general Braga Netto [ex-ministro de Bolsonaro, hoje preso e condenado por golpe de Estado] instruiu os ataques.
Esses militares efetivamente quebraram todas as regras do decoro militar. Um general atacando o outro? Então uma anistia provocaria divisões.
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BBC News Brasil – O PL, partido de Bolsonaro, elegeu as maiores bancadas para a Câmara e o Senado. Acha que militares que não estejam totalmente alinhados com o projeto bolsonarista podem sofrer pressões desses congressistas?
Martins Filho – Eu acho que, se for eleito, o Flávio vai nomear comandantes das Forças e chefes de Estado-Maior mais alinhados com ele. Mas não acho que ele vá chamar militares para o Palácio do Planalto, até para se distinguir do pai. Também queria saber que tipo de general aceitaria trabalhar no Planalto com os antecedentes que tivemos.
Além disso, desta vez, eles venceriam a eleição sem qualquer participação militar. Os militares já fizeram o papel que eles queriam que fizessem na ascensão do bolsonarismo.
Para se eleger e governar, Jair Bolsonaro precisava dos militares, mas sempre houve uma tensão muito grande entre o grupo militar e o grupo conhecido como “gabinete do ódio”.
Esse grupo disputava o poder com os militares e foi capaz de, já no comecinho do governo, mandar embora o general Santos Cruz [primeiro ministro-chefe da Secretaria de Governo de Jair Bolsonaro], quando ele entrou em conflito com os filhos do Bolsonaro.
Agora eles não precisam mais dos militares, porque o movimento deles se fortaleceu o suficiente, e acho que não vão se achar obrigados a se aproximar das Forças Armadas.
Tenho a impressão de que não vai haver de novo uma situação como aquela que aconteceu em 2018, quando o então chefe do Exército [general Eduardo Villas Bôas] alertou o STF que não aceitaria que o Lula fosse solto e pudesse concorrer à Presidência.
Se eles ganharem do Lula, significa que nem para vencer o Lula eles precisam de militares agora. É duro para as Forças Armadas aceitarem isso, mas elas foram usadas pelo Bolsonaro.
BBC News Brasil – O que o senhor acha da declaração de Lula de que uma vitória de Flávio colocaria a democracia brasileira em risco?
Martins Filho – Eu acho que o Lula está certo nesse ponto. Poria em risco a democracia brasileira e a soberania brasileira, porque eles [Bolsonaros] têm uma visão muito particular do sistema político. Isto é, para eles, a política é uma coisa de família.
Com a crise que nós temos hoje do Judiciário, eu acho que vamos fazer parte daquele livro Como morrem as democracias [de Steven Levitsky e Daniel Ziblatt, professores de Ciência Política na Universidade de Harvard, nos EUA].
Eles mostram que as democracias morrem por métodos democráticos. Primeiro, as forças políticas sobem por eleições. Segundo, passam a controlar o Poder Judiciário. Se eles controlam o Executivo, o Judiciário e o Legislativo por dentro, estão em condições excelentes para começar a corroer as instituições democráticas a partir de dentro.
Fonte: BBC
