Coreia do Norte: perfil da reclusa e comunista metade da Coreia

Faz várias décadas que a Coreia do Norte é uma das sociedades mais isoladas e misteriosas do mundo. É também um dos poucos países sob um regime comunista.

A Coreia do Norte nasceu em 1948, em meio ao caos existente logo após a Segunda Guerra Mundial. Ocupada pelo Japão desde o início do século, a Coreia foi tomada em 1945 pelos dois principais vencedores da guerra, Estados Unidos e União Soviética.

Para a divisão da península com a delimitação da fronteira ntre os dois novos países foi usado o chamado paralelo 38, a linha imaginária localizada trinta e oito graus ao norte da linha do Equador.

Os americanos ficaram na porção sul, enquanto os soviéticos dominaram o norte, onde o líder local Kim Il-sung lutava contra a ocupação japonesa.

Kim Il-sung acabou se tornando o pai do nascente regime comunista na metade norte da Península Coreana, moldando sua estrutura política, econômica e social por mais de 40 anos. O regime que ele liderou baseava-se na ideia de autossuficiência do país, centralismo político e econômico e culto à personalidade do líder. A partir de sua morte, em 1994, o governo norte-coreano consolidou-se como hereditário: o poder passou para Kim Jong-il, seu filho, e em 2011 para Kim Jong-un, seu neto.

Crédito, ED JONES/Getty Images

Legenda da foto,

O regime comunista da Coreia do Norte define a vida do país, que continua distante da comunidade internacional

Em 1950, a Coreia do Norte invadiu o lado sul da península, dando início à Guerra da Coreia – o regime comunista alega ter respondido a uma invasão. O conflito, com participação dos Estados Unidos ao lado dos capitalistas do sul, numa coalizão com forças da ONU, durou três anos. Em 1953, houve uma trégua, sem um acordo formal de paz, o que deixou as duas Coreias tecnicamente em guerra por mais de 50 anos.

As décadas de um sistema rígido de controle estatal levou o país à estagnação econômica. O Estado totalitário norte-coreano também é acusado de abusos sistemáticos de direitos humanos. A partir do fim dos anos 1990, uma série de iniciativas de paz levou a avanços nas relações entre os dois lados da península. Cidadãos de ambos os lados foram autorizados a encontrar parentes separados pela divisão coreana, e houve encontros entre os líderes das duas Coreias.

Getty Images

República Popular Democrática da Coreia

Capital: Pyongyang

  • População25,6 milhões

  • Área652.860 quilômetros quadrados

  • Principal línguaCoreano

  • Principal religiãoAteísmo, com crenças tradicionais

  • Expectativa de vida69 anos (homem), 76 anos (mulher)

  • MoedaWon

Fonte: ONU, Banco Mundial

Líder supremo: Kim Jong-un

Crédito, Getty Images

Legenda da foto,

Kim Jong-un, no poder desde 2011, representa a terceira geração de sua família no comando do país

Filho mais jovem de Kim Jong-il, o líder anterior da Coreia do Norte, Kim Jong-un sucedeu seu pai após sua morte, de um ataque cardíaco, em dezembro de 2011. Ele já havia sido anunciado como sucessor de Kim Jong-il em 2010 e recebeu a patente de general de quatro estrelas, apesar de não ter experiência militar.

Logo depois da morte de seu pai, a mídia estatal norte-coreana louvou Kim Jong-um como “uma grande pessoa nascida do céu”. A mídia também o chamou de “grande sucessor” da filosofia juche (auto-suficiência), indicando a continuação do culto a personalidades da família Kim, agora em sua terceira geração.

Acredita-se que a tarefa de guiar Kim Jong-un como seu mentor, quando ele assumiu o poder, ficou nas mãos de sua tia, Kim Kyung-hee, e seu marido, Chang Song-thaek. No final de 2013, porém, Chang foi considerado culpado de tentar derrubar o regime e sumariamente executado, no que foi considerada a mais crise na liderança norte-coreana desde a morte de Kim Jong-il. Em 2016, Kim Jong-un convocou o primeiro Congresso do Partido dos Trabalhadores em quase quatro décadas, numa tentativa de fortalecer sua posição como líder nacional.

Há poucos detalhes sobre os primeiros anos de vida de Kim Jong-un. Nascido em 1983 ou 1984, há informações de que ele tenha estudado numa escola na Suíça, antes de cursar uma universidade na Coreia do Norte. Após tornar-se líder, ele começou a exibir um estilo mais informal em suas aparições públicas, mas a mídia oficial rapidamente negou a possibilidade de que isso pudesse significar algum relaxamento no controle totalitário estatal.

Sempre houve certa preocupação com a saúde de Kim Jong-un, devido a seu excesso de peso. Em setembro de 2014, a mídia estatal informou que ele sofria de um “desconforto físico”, depois que ele foi visto mancando por vários meses. Kim acabou não mais aparecendo em público por seis semanas.

Em 2018, Kim Jong-un encontrou-se com o então presidente americano, Donald Trump, em Cingapura. Foi o primeiro encontro entre os líderes da Coreia do Norte e dos Estados Unidos. Os dois voltaram a se encontrar no ano seguinte, no Vietnã, e Trump fez vários comentários positivos a respeito do líder norte-coreano.

Na Coreia do Norte, aparelhos de rádio e televisão são previamente programados para seguir as estações oficiais do governo, que transmitem mensagens regulares de propaganda. A imprensa e as emissoras de radiodifusão – todas elas sob rígido controle estatal – ofereceu um cardápio de reportagens elogiosas sobre o líder norte-coreano.

As dificuldades econômicas do país não são noticiadas, e o trabalho de jornalistas estrangeiros é raro e controlado. A Coreia do Norte é considerada um dos países mais difíceis para a imprensa estrangeira cobrir.

Crédito, Getty Images

Legenda da foto,

Na Coreia do Norte, a imprensa e a mídia em geral são controladas pelo regime comunista

Cidadãos norte-coreanos que sejam pegos ouvindo transmissões de rádio estrangeiras correm o risco de sofrem duras punições, incluindo trabalho forçado. Para evitar que alguém as ouça, as autoridades tentam sempre interferir nas transmissões vindas do exterior ou de dissidentes.

Segundo a entidade Repórteres Sem Fronteiras, uma pequena esperança reside no mercado paralelo de comunicações existente na fronteira entre a Coreia do Norte e a China, onde se acredita que circulem gravações de filmes e novelas sul-coreanas.

A Coreia do Norte tem uma presença mínima na internet. A agência de notícias oficial KCNA e o jornal partidário Rodong Sinmun estão entre os poucos com sites oficiais online. Seu conteúdo é destinado principalmente ao público fora da Coreia do Norte. O Uriminzikkiri, um site baseado na China, publica notícias de fontes oficiais norte-coreanas. Ele opera contas no Twitter, no YouTube e no Flickr.

RELAÇÕES COM O BRASIL

O Brasil passou a segunda metade do século 20 sem relações oficiais com a comunista Coreia do Norte. Os dois países só formalizaram o contato diplomático em março de 2001, com um comunicado conjunto. Na época, as relações entre o regime norte-coreano e o Ocidente, especialmente os Estados Unidos, passavam por um momento de aproximação – interrompido após o 11 de Setembro e a inclusão da Coreia do Norte, pelos EUA, no que o presidente George W. Bush chamou de “Eixo do Mal”.

A mudança de tom no contato entre Pyongyang e o Ocidente não impediu que os norte-coreanos inaugurassem sua embaixada em Brasília em 2005, e o Brasil abrisse a sua no país asiático em 2009. Acordos foram assinados, entre eles o Acordo Básico de Cooperação Econômica e Técnica, de 2010.

Segundo o Itamaraty, o Brasil também contribuiu com a Coreia do Norte por meio de ajuda humanitária – com doações em 2010, 2011 e 2012, por meio do Programa Mundial de Alimentos, da ONU.

LINHA DO TEMPO

Datas importantes na história da Coreia do Norte:

Antiguidade e Idade Média – Diferentes reinos governam a Península Coreana. Organização política confunde-se com o território da moderna China, com o Estado de Balhae (séculos 7 a 10) tomando parte da Coreia do Norte e a região da Manchúria.

1905 – Após vitória do Japão no conflito com a Rússia, Japão e o Império Coreano assinam o Tratado de Protetorado, pelo qual a Coreia perde sua autonomia em relações externas.

1910 – Depois de cinco anos de domínio, o Japão anexa e ocupa a Coreia.

1910-1945 – Ocupação da Península Coreana pelo Japão.

1945 – Depois da Segunda Guerra Mundial, a ocupação japonesa termina com tropas soviéticas ocupando a área ao norte do paralelo 38, enquanto forças dos Estados Unidos ocupam o sul.

1946 – O Partido Comunista da Coreia do Norte, chamado de Partido dos Trabalhadores Coreanos, é fundado. Uma liderança apoiada pela União Soviética é instalada do lado norte da península, incluindo Kim Il-sung, anteriormente treinado pelo Exército Vermelho (soviético).

1948 – Proclamação da República Popular Democrática da Coreia, com Kim Il-sung como líder. As tropas soviéticas retiram-se do país.

1950 – O lado sul da península declara sua independência da parte norte, provocando a invasão por forças do norte e o início da Guerra da Coreia.

Crédito, Getty Images

Legenda da foto,

Os três anos da Guerra da Coreia espalharam morte e destruição e deixaram a península dividida

1953 – Armistício põe fim aos combates no conflito. Fronteira entre os dois países é consolidada próxima ao paralelo 38. Uma zona desmilitarizada é criada.

Década de 1960 – Rápido crescimento industrial no país.

1972 – Norte e Sul divulgam uma declaração conjunta sobre uma reunificação pacífica.

1974 – Kim Il-sung aponta seu filho mais velho, Kim Jong-il, como seu sucessor.

Crédito, API/Gamma-Rapho via Getty Images

Legenda da foto,

Nos anos 1970, Kim Il-sung escolheu Kim Jong-il (dir), seu filho, como seu sucessor no comando do país

1985 – A Coreia do Norte integra o Tratado de Não-Proliferação Nuclear, que proíbe o país de produzir armas nucleares.

1986 – O reator nuclear de pesquisas de Yongbyon começa a funcionar.

1991 – As Coreias do Norte e do Sul passam a integrar a Organização das Nações Unidas.

1993 – A Agência Internacional de Energia Atômica acusa a Coreia do Norte de violar o Tratado de Não-Proliferação Nuclear e exige que seus inspetores recebam acesso a locais de armazenamento de lixo nuclear. A Coreia do Norte ameaça deixar o tratado.

1993 – Pyongyang lança, durante teste, um míssil balístico de médio alcance Rodong no Mar do Japão.

1994 – Em julho, morre Kim Il-sung. Seu filho Kim Jong-il o sucede como líder do país.

1994 – Em outubro, a Coreia do Norte e os EUA assinam um acordo pelo qual Pyongyang compromete-se a congelar seu programa nuclear em troca de óleo combustível e dois reatores nucleares leves.

1996 – Grandes enchentes e onda de fome atingem o país. Acredita-se que cerca de 3 milhões de norte-coreanos tenham morrido sem alimentação.

1996 – Em abril, o regime anuncia que não vai mais respeitar o armistício que encerrou a Guerra da Coreia e envia milhares de tropas para a zona desmilitarizada, que separa as duas Coreias.

1998 – Em agosto, a Coreia do Norte lança um míssil de longo alcance que passa sobre o Japão e cai no Oceano Pacífico, muito além da capacidade norte-coreana conhecida até então.

2000 – Um encontro histórico entre Kim Jong-il e o presidente sul-coreano, Kim Dae-jung, acontece em junho. A reunião abre caminho para a reabertura de escritórios de contatos e reuniões de famílias separadas pela divisão da península. O Sul também concede anistia a mais de 3.500 prisioneiros norte-coreanos.

Crédito, Getty Images

Legenda da foto,

Kim Jong-il e o sul-coreano Kim Dae-jung realizaram um encontro histórico em junho de 2000

2002 – Em janeiro, o presidente americano, George W. Bush, chama a Coreia do Norte, o Iraque e o Irã de “Eixo do Mal” por continuarem a construir “armas de destruição em massa”.

2002 – Em setembro, o primeiro-ministro do Japão, Junichiro Koizumi, faz uma visita histórica à Coreia do Norte, que admite ter abduzido 13 cidadãos japoneses nos anos 1970 e 1980, entre os quais quatro ainda estavam vivos.

2002 – Pyongyang anuncia, em dezembro, que está reativando as operações nucleares em Yongbyon e expulsa inspetores da ONU.

2003 – Em janeiro, a Coreia do Norte retira-se do Tratado de Não-Proliferação Nuclear. O gesto leva ao início das negociações “das seis partes”, envolvendo China, as duas Coreias, os EUA, o Japão e a Rússia, para tentar resolver a polêmica envolvendo o potencial nucelar norte-coreano.

2003 – A Coreia do Norte abandona, em maio, o acordo de 1992 feito com a Coreia do Sul para que não houvesse armamentos nucleares na Península Coreana.

2005 – Em fevereiro, a Coreia do Norte admite pela primeira vez que produziu armas nucleares para “legítima-defesa”.

2006 – Coreia do Norte realiza, em outubro, seu primeiro teste com armas nucleares, numa localidade subterrânea. A ONU impõe sanções econômicas e comerciais contra o país.

Crédito, ED JONES/Getty Images

Legenda da foto,

O programa nuclear e os mísseis norte-coreanos são vistos como grandes ameaças à paz na região

2007 – Coreia do Norte fecha seu principal reator em Yongbyon, depois de receber 50 mil toneladas de óleo combustível pesado e um pacote de ajuda.

2007 – Em outubro, ocorre o segundo encontro intra-coreano, em Pyongyan. O presidente Roh Moon-hyun torna-se o primeiro líder sul-coreano a caminhar para o outro lado da Zona Desmilitarizada, que separa o Norte e o Sul.

2008 – Em março, as relações entre Norte e Sul se deterioram depois que o presidente sul-coreana, Lee Myung-bak, promete adotar uma política mais dura contra Pyongyang.

2008 – Pyongyang concordar, em outubro, em oferecer acesso total à instalação nuclear de Youngbyon depois que os EUA retiram o país de sua lista de promotores do terrorismo.

2009 – Em maio, a Coreia do Norte realiza seu segundo teste nuclear subterrâneo. No mês seguinte, o Conselho de Segurança da ONU condena a explosão.

2010 – Há informações de um aumento em distúrbios sociais, que levam o governo a relaxar restrições contra o mercado livre, depois que uma ajuste no valor da moeda nacional fez evaporar parte das economias da população do país. Em setembro, Kim Jong-um, filho mais jovem de Kim Jong-il, é nomeado para altos posto militares e políticos, gerando especulação sobre uma posição sucessão no poder.

2011 – Kim Jong-il morre, em dezembro. Kim Jong-um lidera o funeral e assume postos-chaves em abril do ano seguinte.

2012 – Pyongyang afirma possuir mísseis que podem atingir a massa territorial dos EUA.

2012 – Em dezembro, a Coreia do Norte lança, com sucesso, um satélite em órbita, após uma fracassada tentativa em abril.

2013 – Em fevereiro, a ONU aprova novas sanções contra a Coreia do Norte depois que Pyongyang realiza seu terceiro teste nuclear, considerado mais potente que o de 2009.

2013 – A China, único aliado de Pyongyang, proíbe em setembro as exportações para a Coreia do Norte de itens que possam ser usados para fabricar mísseis ou armas nucleares, químicas ou biológicas.

2013 – Em dezembro, o tio de Kim Jong-un, Chang Song-thaek, é considerado culpado de tentar derrubar o regime e executado.

Crédito, Getty Images

Legenda da foto,

O tio de Kim Jong-un foi preso e executado sob acusação de tentar derrubar o regime

2014 – Oficiais norte-coreanos realizam uma visita surpresa ao Sul, em outubro, e concordam com a retomada de negociações formais que haviam sido suspensas em fevereiro.

2015 – Em setembro, a Coreia do Norte confirma ter reiniciado as operações na instalação nuclear de Yongbyon – suspensas desde 2007.

2016 – O Partido dos Trabalhadores da Coreia, o partido do regime, realiza em maio seu primeiro congresso em 40 anos, durante o qual Kim Jong-un é eleito líder da organização.

2017 – Em fevereiro, Kim Jong-nam, meio-irmão de Kim Jong-um, é assassinado com o uso de um agente nervoso altamente tóxico na Malásia. Investigadores suspeitam de envolvimento do regime norte-coreano.

2018 – Primeiro diálogo entre Norte e Sul em dois anos dá início a um relaxamento das tensões. O processo leva ao envio, por Pyongyang, de um grupo de atletas para a Olimpíada de Inverno, realizada na Coreia do Sul.

2018 – Em abril, Kim Jong-un torna-se o primeiro líder norte-coreano a entrar na Coreia do Sul quando ele se encontra com o presidente Moon Jae-in para uma reunião em Panmunjom, na fronteira entre os dois países. Ambos concordam em encerrar das ações hostis e trabalhar pela redução dos armamentos nucleares na Península Coreana.

Crédito, Getty Images

Legenda da foto,

Kim Jong-un recebeu Donald Trump na fronteira com a Coreia do Sul em junho de 2019

2018 – Kim Jong-un e o presidente dos EUA, Donald Trump, realizam um encontro histórico em Cingapura, numa tentativa de colocar um fim na disputa nuclear. Um novo encontro no Vietnã, em 2019, termina sem acordo depois que a Coreia do Norte se recusa a abandonar suas armas nucleares em troca do fim das sanções econômicas.

2019 – Em abril, Kim Jong-un realiza sua primeira visita à Rússia. Em um encontro em Vladivostok, ele recebe apoio do presidente Vladimir Putin quanto a garantias de segurança no caso de desmantelamento do arsenal nuclear norte-coreano.

2019 – Em junho, Kim Jong-un recebe, na fronteira entre as duas Corias, o presidente Donald Trump, que se torna o primeiro chefe de Estado americano a pisar na Coreia do Norte.

Fonte: BBC