
Crédito, Adriano Machado/Reuters
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- Author, Camilla Veras Mota e João Fellet
- Role, Da BBC News Brasil em São Paulo
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Tempo de leitura: 7 min
O último debate entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e o senador Flávio Bolsonaro (PL) antes do segundo turno da eleição presidencial teve um tom bastante diferente do primeiro embate entre os dois, marcado por trocas de acusações.
Transmitido pela TV Globo na noite de sexta-feira (23/10), o confronto teve um formato que favoreceu mais a discussão de propostas: a maior parte das perguntas foi formulada a partir de temas pré-estabelecidos e cada candidato teve que se manter no púlpito enquanto o outro falava.
Flávio procurou explorar temas relacionados à segurança pública e economia, trazendo em suas respostas comentários sobre aumento do custo de vida em diversos momentos. Também procurou retratar Lula como um candidato ultrapassado — e chegou em uma das investidas a elogiar as ideias que ele tinha no primeiro mandato:
“Ele parece que parou no tempo. Infelizmente, o atual presidente da República, as ideias que ele tinha, que eram boas lá atrás, hoje não funcionam mais. As ideias que funcionavam lá atrás, no início dos anos 2000, hoje, pelos problemas que o Brasil tem, são completamente diferentes”, afirmou.
Já Lula buscou em diferentes oportunidades sugerir que Flávio cortaria programas e benefícios sociais e retratá-lo como candidato da elite, contrapondo sua trajetória como trabalhador da indústria e político à dele.
O presidente se atrapalhou com as regras do debate em certos momentos e não conseguiu controlar o tempo em algumas respostas, como destacou a cientista política Denilde Holzhacker. Ela apontou, por outro lado, que a falta de paciência de Flávio não o ajudou e pode ter passado uma percepção de arrogância para quem estava assistindo.
Confira a seguir alguns dos principais momentos do debate.
Crédito, Reuters
‘Nove dedos’
O debate teve um tom mais ameno do que o primeiro confronto, mas também teve momentos acalorados. Um deles ocorreu quando Flávio fez uma provocação a Lula, referindo-se ao fato de ele ter nove dedos nas mãos. Lula perdeu o dedo mínimo da mão esquerda em um acidente de trabalho quando trabalhava como torneiro mecânico aos 17 anos.
“Não adianta nada, Lula, o salário mínimo ser de R$ 1.621, se você dá com uma mão e tira com nove dedos”, afirmou Flávio.
Lula reagiu dizendo que não permitiria “que um miliciano me chame de nove dedos”.
“Se tem alguém aqui nesse público que sabe o que é o mundo do trabalho, sou eu”, disse o presidente. Lula afirmou ainda que Flávio “nunca trabalhou na vida” e exigiu um pedido de desculpas do senador.
Flávio se desculpou, mas aproveitou a resposta para perguntar se Lula “vai pedir desculpas aos moradores de rua que dobraram durante o seu governo”, além de enumerar outras críticas ao governo.
A cientista política Denilde Holzhacker destacou que Lula tentou usar o episódio para tentar retratar Flávio como um candidato da elite, usando como contraponto sua própria trajetória.
“O Lula tenta mostrar o Flávio como insensível às questões sociais e fez um discurso contundente contra a fala anterior do Flávio, referindo-se a ele com ‘nove dedos’. Mas o Flávio, ao pedir desculpas, diminuiu o efeito esperado por Lula”, avaliou.
O candidato do PL também voltou atrás em outro momento, quando questionado sobre seu voto, enquanto deputado estadual no Rio de Janeiro, contra o aumento da licença maternidade.
“Isso faz bastante tempo, e na época eu votei acreditando que isso poderia dificultar que as mulheres conseguissem arrumar emprego, e eu estava errado”, afirmou.
“Hoje, depois que eu casei, depois que eu tenho duas filhas, mais do que nunca, eu sei da importância da mãe estar perto do filho por até mais de 180 dias, se possível. Então, de verdade, eu hoje votaria completamente diferente.”
‘Mão pesada’ contra o crime e caso Ana Clara
Flávio alternou tentativas de moderar o tom com momentos de fala mais contundente. Um deles foi em um bloco sobre segurança pública, uma área em que sua campanha vem tentando passar a imagem de linha dura contra o crime.
“Eu vou tratar bandido como bandido. A redução da maioridade penal vai acontecer finalmente no Brasil com o Flávio Bolsonaro presidente. E não vai ser só para 16 anos, vai ser para 14 anos”, disse Flávio.
“Você que é estuprador, você que é abusador de crianças, você vai sofrer castração química, meu governo vai ser mão pesada com esses marginais”, acrescentou.
Já Lula respondeu mencionando o caso de Ana Clara, menina de cinco anos morta a tiros em Niterói, no Rio de Janeiro, em 2021.
Ele citou a mãe da menina, presente na plateia. Flávio atuou na defesa do policial militar acusado de efetuar o disparo que matou Ana Clara.
“O que leva um senador a defender um policial que deu um tiro de fuzil numa menina de cinco anos?”, questionou Lula.
Flávio manifestou solidariedade à mãe da menina, mas afirmou que o policial ainda não havia sido julgado e disse acreditar que ele não fosse o autor do disparo:
“Era uma troca de tiros numa comunidade conflagrada, a senhora sabe que tem o tráfico de drogas aí. Eu quero ajudar a senhora inclusive a saber quem foi o autor desse disparo, porque eu tenho a confiança que não foi esse policial. Ele sequer foi julgado ainda”.
Flávio então atacou o presidente afirmando que ele defende ladrão de celular e questionou por que Lula não concordava com a classificação de grupos criminosos como organizações terroristas. Lula reagiu acusando Flávio de estar ligado a milicianos no Rio de Janeiro.
“Todo mundo sabe a relação dele com muita coisa ruim aqui no Rio de Janeiro. Todo mundo assistiu aos discursos dele na Assembleia Legislativa defendendo miliciano, oferecendo condecoração pra miliciano”, afirmou Lula.
Flávio se defendeu da acusação de ligação com milicianos em um direito de resposta no fim do debate e disse nunca ter sido investigado por envolvimento com milícia.
“Quando ele fala do narcotráfico, é porque ele quer entregar pro Trump cuidar daqui”, acrescentou o petista, referindo-se à decisão do governo americano, endossada por Flávio, de classificar as facções Comando Vermelho e Primeiro Comando da Capital como organizações terroristas.
Crédito, Reuters
Endividamento e modelo Milei
A economia foi outro tema central do debate. Flávio acusou o governo Lula de gastar demais, pressionar os juros e deixar as famílias mais endividadas. O senador criticou o custo de vida e a dificuldade de muitos brasileiros para pagar despesas básicas.
“Meu concorrente prometeu picanha e entregou abóbora”, afirmou.
Flávio não detalhou, no entanto, como faria para reduzir os gastos do governo, dizendo apenas que a economia viria do combate à corrupção. Além disso, comprometeu-se a manter programas sociais e a política de reajustes do salário mínimo.
A política econômica do presidente argentino Javier Milei também foi citada. Lula criticou o modelo de ajuste fiscal adotado pelo governo argentino. “O povo está comendo carne de burro”, afirmou.
Ele questionou se Flávio pretendia adotar medidas semelhantes no Brasil.
Já Flávio defendeu o presidente argentino e atribuiu a crise econômica do país aos governos anteriores, de esquerda.
O senador destacou a inflação elevada que a Argentina enfrentava antes da chegada de Milei e afirmou que o Brasil precisaria passar por um processo semelhante de ajuste.
Crédito, Agência Brasil/Joédson Alves
Banco Master e Lulinha
No bloco final, Lula e Flávio puderam fazer perguntas diretamente um ao outro. A dinâmica trouxe de volta o clima de confronto do primeiro debate, com novas acusações e questionamentos que, em vários momentos, ficaram sem resposta direta.
Os dois mencionaram o ex-banqueiro Daniel Vorcaro e o caso Master. Flávio é alvo de um inquérito que apura suspeitas de lavagem de dinheiro, evasão de divisas e corrupção relacionadas ao financiamento do filme Dark Horse por Vorcaro.
O senador também levantou suspeitas envolvendo Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, filho do presidente, investigado em três inquéritos. Citou ainda a empresária Roberta Luchsinger, amiga de Lulinha e investigada por suspeitas de tráfico de influência, corrupção e lavagem de dinheiro.
As menções levaram a novas trocas de acusações entre os candidatos na reta final do debate.
Fonte: BBC
