Venezuela: nação sul-americana rica em petróleo e turbulenta na política

A Venezuela é um país de impressionante beleza natural e uma das nações mais urbanizadas da América Latina. É dono das maiores reservas comprovadas de petróleo do mundo, assim como enormes quantidades de carvão, minério de ferro, bauxita e ouro. Ainda assim, muitos venezuelanos vivem na pobreza, geralmente em favelas, muitas espalhadas nas colinas em torno da capital, Caracas.

O país tem uma história de regimes autoritários desde o século 19, passou por uma ditadura militar nos anos 1950, mas a democracia foi instituída na década seguinte. A política, no entanto, seguia dominada por partidos ligados a interesses da elite econômica.

Os anos 1990 foram uma fase de liberalização da economia, quadro que levou um grupo de militares esquerdistas a tentar um golpe de Estado, em fevereiro de 1992. Após o fracasso do golpe, Hugo Chávez Frias, líder do grupo por trás do levante, o Movimento Bolivariano Revolucionário, foi preso. O então presidente, Carlos Andrés Pérez, sofreria impeachment um ano depois, em um exemplo da outra fonte de insatisfação dos opositores ao governo: a corrupção.

Hugo Chávez foi perdoado pelo presidente Rafael Caldera e libertado em 1994. Quatro anos depois, Chávez foi eleito presidente, iniciando em seguida o que chamou de “revolução bolivariana”, com mudanças na Constituição e na estrutura do governo.

Crédito, Getty Images

Legenda da foto,

Os venezuelanos têm orgulho de sua história, especialmente de Simón Bolívar, cuja estátua é destaque em Caracas

Chávez, que morreu em 2013, apresentou-se como um defensor dos pobres durante os 14 anos em que esteve no comando do país – colocando bilhões de dólares da riqueza do petróleo em programas sociais.

O governo de seu sucessor, Nicolás Maduro, no entanto, enfrentou dificuldades com a queda dos preços do petróleo no mercado internacional, além de uma crise econômica e política que deixou a Venezuela próxima a um estado de colapso.

Em meio à crise, entre 2015 e 2019 a população da Venezuela sofreu uma significativa queda, de 30 milhões para 28,5 milhões – 1,5 milhão de pessoas em quatro anos. Durante o embate político com a oposição, que levou o líder oposicionista Juan Guaidó a declarar-se presidente, Maduro promoveu uma revisão da Constituição, por meio de uma Assembleia Constituinte.

No esporte, a Venezuela destaca-se na América do Sul por ter o beisebol como esporte mais popular.

BBC

República Bolivariana da Venezuela

Capital: Caracas

  • População28,5 milhões

  • Área881.050 quilômetros quadrados

  • Principais línguasEspanhol, línguas indígenas

  • Principal religiãoCristianismo

  • Expectativa de vida70 anos (homem), 79 anos (mulher)

  • MoedaBolívar

Fonte: ONU, Banco Mundial

Presidente: Nicolás Maduro

Crédito, Getty Images

Legenda da foto,

Nicolás Maduro assumiu a Presidência venezuelana após a morte de seu mentor político, Hugo Chávez

O presidente Nicolás Maduro assumiu o governo da Venezuela em março de 2013, depois da morte de seu mentor político, Hugo Chávez. Em maio de 2018, ele foi reeleito para um segundo mandato de seis anos, num pleito marcado por um boicote da oposição e alegações de fraudes.

Na época, a Venezuela estava no meio de uma crise econômica profunda, com inflação em disparada e falta de produtos de necessidade básica, apesar de o país ser dono das maiores reservas de petróleo do mundo. Sucateada pela falta de investimentos de reposição e modernização, a indústria petroleira venezuelana não consegue aumentar a produção para se beneficiar de uma demanda mundial crescente.

Afetada pela queda brusca e acentuada nos preços do petróleo no mercado internacional e sob severas sanções econômicas impostas pelos Estados Unidos, a economia da Venezuela se manteve em profunda depressão e os preços das mercadorias dispararam em meio a uma crise desabastecimento.

Como resultado, a crise provocou um enorme êxodo de venezuelanos em direção aos países vizinhos, com a Colômbia recebendo o maior contingente.

Maduro não realizou nenhuma reforma significativa na economia fortemente dependente do Estado e estabeleceu uma Assembleia Constituinte para evitar a Assembleia Nacional e fortalecer seu controle do país.

No início de 2019, o líder oposicionista Juan Guaidó declarou-se presidente interino e apelou às Forças Armadas para que derrubassem Maduro. A União Europeia, os Estados Unidos e muitos países latino-americanos reconheceram Guaidó como presidente, deixando Maduro dependente do Exército e do apoio internacional recebido da Rússia e da China.

Crédito, Getty Images

Legenda da foto,

A forte polarização política na Venezuela reflete-se na mídia do país, com acusações de ameaças a jornalistas

A polarização política venezuelana reflete-se na mídia do país, num processo que começou durante o governo de Hugo Chávez (1999-2013), cujos críticos o acusavam de perseguir veículos críticos a ele. Opositores de Nicolás Maduro dizem que ele manteve as mesmas táticas, que também foram condenadas por grupos em defesa da liberdade de imprensa. A internet tornou-se um espaço para o surgimento de veículos de mídia contra o governo e também de exilados.

Muitos jornalistas fugiram da Venezuela por causa de ameaças e riscos, diz a entidade Repórteres Sem Fronteiras (RSF). Segundo a RSF, o jornalismo impresso são geralmente prejudicados por “estranha escassez de papel jornal”. Alguns jornais disseram ter sido forçados a parar de imprimir depois de ficarem sem acesso a moeda forte para comprar papel e tinta no exterior.

O principal veículo de televisão usado pelo governo para transmitir sua mensagem é a Venezolana de Television (VTV), que transmite discursos de Maduro e divulga as atividades de seus ministros. Sua cobertura geralmente ignora a oposição.

Os reguladores do setor de telecomunicações barraram muitos competidores da VTV que ficaram sem acesso às redes de TV a cabo. Globovision, veículo que foi crítico do regime, mudou sua linha editorial após ser vendida, em 2013. Seus novos proprietários tinha ligações com o governo.

A Venezuela é o principal acionista da Telesur, uma rede de TV pan-americana baseada em Caracas. Os governos com uma participação na iniciativa são todos de esquerda ou de centro-esquerda.

No final de 2020, segundo o InternetWorldStats.com, havia 23,6 milhões de usuários da internet na Venezuela. O governo e seus opositores usam as mídias sociais como um campo de batalha política. Tanto oficiais como os militares operam uma série de contas no Twitter, assim como o movimento de oposição. Durante a violência que explodiu nas ruas no início de 2019, a NetBlocks, uma organização de direitos digitais, documentou interrupções no acesso ao Twitter, ao Facebook e ao aplicativo de transmissão em vídeo Periscope.

RELAÇÕES COM O BRASIL

Brasil e Venezuela compartilham uma importante fronteira na região amazônica e uma história de boas relações, que no entanto se deterioraram a partir de 2016.

Em 1826, a Grã-Colômbia, da qual fazia parte a Venezuela, reconheceu a independência brasileira. Quatro anos depois, porém, a Venezuela tornou-se um país independente, o que levou à necessidade de regularizar as relações com seu vizinho de maior porte.

Em 1859, a fronteira entre Brasil e Venezuela foi definida, por meio do Tratado de Limites e Navegação Fluvial. A demarcação detalhada propriamente dita da fronteira, com 2.199 quilômetros, só ocorreria na década de 1970.

Em 1964, a Venezuela desfrutava de um período democrático, após ter passado por uma década de regime militar. Com o golpe militar que levou os militares ao poder em Brasília, o governo venezuelano de Raúl Leoni rompeu relações com o Brasil – retomadas em 1966.

Nos anos 1980, quando o Brasil voltou à democracia, os vizinhos continuaram com boas relações. Após a chegada ao poder de Hugo Chávez, o Brasil passou a exercer um papel de intermediador entre Caracas e Washington, devido à hostilidade existente entre o novo governo venezuelano e os Estados Unidos.

Esse papel diplomático foi inicialmente exercido pelo presidente Fernando Henrique Cardoso, que mantinha uma relação cordial com Chávez, e posteriormente assumido por Luiz Inácio Lula da Silva.

Apesar de considerado um aliado ideológico de Chávez, Lula também tinha boas relações com os líderes americanos – tanto George W. Bush como Barack Obama – e muitas vezes servia de ponte entre EUA e Venezuela.

Em 2016, após o impeachment da presidente Dilma Rousseff, o governo de Nicolás Maduro em Caracas chamou o processo de “golpe” e recusou-se a reconhecer o governo de Michel Temer. Tal dificuldade nas relações agravou-se com a vitória do conservador Jair Bolsonaro nas eleições brasileiras de 2018.

Logo depois de tomar posse, ainda em janeiro de 2019, Bolsonaro anunciou que o Brasil passaria a reconhecer o oposicionista Juan Guaidó como o legítimo presidente da Venezuela. As relações deterioram-se ainda mais ao longo do ano, e no início de 2020 Brasília anunciou que retiraria seu corpo diplomático da Venezuela.

Os últimos diplomatas brasileiros deixaram o país vizinho em abril de 2020. Em agosto, Caracas sinalizou a intenção de retomar o diálogo e as relações com o governo brasileiro.

Em janeiro de 2023, após a posse de Lula para o seu terceiro mandato na Presidência, as relações com o governo de Nicolás Maduro foram restabelecidas.

LINHA DO TEMPO

Importantes datas na história da Venezuela:

1810 – Os venezuelanos aproveitam a invasão da Espanha por Napoleão para declarar sua independência.

1829-30 – A Venezuela se separa da Gran-Colômbia, nação que reunia os atuais Venezuela, Colômbia e Equador e foi governada pelo libertador Simón Bolívar.

Crédito, Getty Images

Legenda da foto,

Bolívar, homenageado com murais e estátuas na Venezuela, não conseguiu manter unida a Gran-Colômbia

1870-88 – O governante Antonio Guzmán Blanco atrai investimento estrangeiro, moderniza a infraestrutura e desenvolve a agricultura e a educação.

1902 – A Venezuela não consegue pagar suas dívidas. Seus portos são bloqueados por navios de guerra do Reino Unido, da Itália e da Alemanha.

1908-35 – O ditador Juan Vicente Gomez governa numa época em que a Venezuela torna-se o maior exportador de petróleo do mundo.

1945 – Um governo civil, liderado pelo presidente Rómulo Betancourt, é estabelecido após décadas de regime militar.

1948 – O presidente Romulo Gallegos, primeiro líder da Venezuela eleito democraticamente, é derrubado oito meses depois da posse num golpe liderado por Marcos Pérez Jiménez.

1958 – Pérez Jiménez é retirado do poder em meio a uma crise econômica. Pacto político coloca Rómulo Betancourt, presidente de 1945 a 1948, novamente no cargo.

1964 – A primeira transferência de poder de um governante civil para outro ocorre depois que Raul Leoni é eleito presidente.

1973 – A Venezuela beneficia-se da grande demanda por petróleo, e sua moeda nacional chega a seu mais alto valor em relação ao dólar americano. As indústrias de petróleo e aço são nacionalizadas.

1983-84 – Queda dos preços do petróleo no mercado internacional provoca protestos e cortes nos gastos com serviços sociais.

1989 – Carlos Andrés Pérez é eleito presidente em meio à depressão econômica e lança um programa de austeridade com empréstimo do FMI. O programa é seguido de violentas manifestações de rua, decretação de lei marcial e greve geral. Centenas de pessoas são mortas durante confrontos violentos nas ruas.

1992 – Tentativas de golpe lideradas por Hugo Chávez e seu grupo revolucionário bolivariano. Chávez é preso.

1998 – Quatro anos após ser perdoado, Chávez é eleito presidente em meio à decepção com os partidos tradicionais. O novo presidente lança sua chamada “Revolução Bolivariana” – com uma nova Constituição em 1999 e políticas econômicas e sociais socialistas e populistas, financiadas pelos altos preços do petróleo. A política externa do governo torna-se cada vez mais contrária aos Estados Unidos.

2013 – O presidente Chávez morre, aos 58 anos, depois de uma luta contra um câncer. Nicolás Maduro, escolhido por Chávez como seu sucessor, é eleito presidente por uma pequena margem e assume uma nação dividida e uma economia em processo de implosão.

2014 – Fevereiro-Março – Pelo menos 28 pessoas morrem durante a repressão de protestos contra o governo.

2014 – Novembro – O governo anuncia corte nos gastos públicos, com os preços do petróleo no mercado internacional atingindo o menor valor em quatro anos.

2015 – Dezembro – A coalizão União Democrática, de oposição, obtém uma maioria de dois terços nas eleições parlamentares, colocando um fim a 16 anos de controle pelo governista Partido Socialista Unido da Venezuela.

2016 – Setembro – Centenas de milhares de pessoas participam de um protesto em Caracas pedindo a remoção de Maduro do cargo, acusando o presidente de responsabilidade pela crise econômica.

Crédito, Getty Images

Legenda da foto,

Em meio às crises política e econômica, o líder oposicionista Juan Guaidó declarou-se presidente interino

2017 – Julho – A controversa Assembleia Constituinte, convocada por Maduro, é eleita em meio a um boicote da oposição e condenação internacional.

2018 – Maio – A oposição contesta a vitória oficial do presidente Maduro nas eleições presidenciais.

2018 – Agosto – A ONU diz que dois milhões de venezuelanos fugiram para países vizinhos desde 2014.

2019 – Janeiro/Fevereiro – O líder da oposição, Juan Guaidó, declara-se presidente interino e faz um apelo às Forças Armadas para que derrubem Maduro, sob a acusação de ter fraudado o pleito de 2018. A União Europeia, os Estados Unidos e países latino-americanos reconhecem Guaidó como presidente. O então presidente brasileiro, Jair Bolsonaro, suspendeu relações diplomáticas com a Venezuela ao reconhecer Juan Guaidó como presidente venezuelano.

2020 – Dezembro – A oposição boicota as eleições legislativas, que são vencidas pelo partido de Maduro e seus aliados.

2023 – Ao tomar posse para seu terceiro mandato, o presidente Lula envia missão diplomática a Caracas com intuito de restabelecer as relações com a Venezuela, suspensas durante o governo Bolsonaro.

Fonte: BBC