Uma nova forma de envelhecer o vinho está ganhando cada vez mais adeptos na costa portuguesa e se tornando uma nova atração turística. Na região do Alentejo, onde a vida segue um ritmo próprio, os vinicultores encontraram um local perfeito para o envelhecimento do produto.
Na terra de Vasco da Gama, os produtores fizeram como o famoso navegador português: deixaram um pouco de lado a terra lusa e encontraram no mar um campo fértil para aumentar a produção de vinhos, buscar uma nova complexidade aromática e até monetizar com o turismo.
Embarquei para Portugal, a convite do Turismo do Alentejo, para ver de perto esta novidade. Em Sines, na Costa Vicentina, a cerca de 2 horas de viagem de Lisboa, desafiei os meus medos e mergulhei para buscar lá no fundo do mar cristalino a minha garrafa de vinho envelhecida no Oceano Atlântico. O que não fazemos por um bom vinho!
Briefing de segurança antes do mergulho (foto Apeno)
Em 2013, surgiu a Adega do Mar, uma empresa ligada à escola de mergulho científico Ecoalga, que deposita as garrafas no fundo do oceano para o seu envelhecimento e a prática do enoturismo. “Neste momento, num universo de 26 produtores, temos perto de 16 mil garrafas depositadas em quatro locais do Porto de Sines, com profundidades entre os 8 e os 40 metros”, destaca Joaquim Parrinha.
Em um destes lugares, realizei o meu batismo de mergulho. Antes de entrar na água, é hora de um briefing de segurança, de colocar a roupa de neoprene, a qual é bem difícil de entrar devido à aderência à pele, e vestir todo o equipamento de mergulho.
Para quem, como eu, nunca havia feito isto antes, vale pontuar que o cinto de lastro, colete e cilindro de oxigênio pesam bastante e, ao entrar na água, a sensação é de que vamos afundar como uma âncora. Mas o colete infla e o acompanhamento direto dos mergulhadores profissionais te deixa bem tranquilo para explorar o fundo do mar.
- Foto Apeno
Desci a uma profundidade de 8 metros para buscar minha garrafa. Como eu, você com experiência ou sem, pode também se aventurar na Costa Vicentina. A Ecoalga realiza mergulhos na Ilha do Pessegueiro, em Porto Covo, ao longo do verão europeu.
“O turista, vem ter conosco, recebe a formação de adaptação à atividade de mergulho, o equipamento, as noções básicas de mergulho e as normas de segurança; após vamos para a Ilha do Pessegueiro de barco, realizamos a atividade e a recolha de garrafas a 8 m de profundidade”, comenta Joaquim Parrinha, instrutor de mergulho e empreendedor da Adega do Mar.
Ficou interessado e quer buscar a sua garrafa lá no fundo do mar? O serviço pode ser contratado, com antecedência, em qualquer adega que tenha enoturismo subaquático (veja abaixo) ou diretamente com o pessoal da Ecoalga e Adega do Mar. O custo total da experiência com mergulho, equipamento e a garrafa de vinho é a partir de 150 euros por pessoa, cerca de R$
Mergulho com retirada de garrafa envelhecida no mar
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Vinho subaquático
Você já havia ouvido falar sobre vinhos subaquáticos? Eu nunca, até o momento de ser convidado para esta viagem pelo Turismo do Alentejo. Mas acreditem, é uma prática bem antiga com vestígios milenares. Na Europa, um dos atuais pioneiros foi Pierluigi Lugano, proprietário da Bisson Società Agricola. Em 2009, na região italiana da Ligúria, ele começou a mergulhar suas garrafas de espumantes a 60 metros de profundidade.
O que começou como um experimento e principalmente como a busca de mais espaço para expandir a produção, hoje se tornou um dos carros-chefes e diferenciais da vinícola italiana. A Bisson mergulha somente espumante, nada de vinho, e agora até uma cerveja em parceria com empresários brasileiros das Cervejarias Freising Bier & Cia. Razera – experimentei e fiquei apaixonado pela cerveja subaquática, encorpada, muito saborosa e de coloração única!
Em Portugal, a Adega do Mar foi a pioneira e hoje abriga no fundo do Oceano Pacífico produções de diversas vinícolas, entre elas: Quinta da Ferreira de Baixo, Brejinho da Costa, Black Pig, Quinta da Casa Boa, Quinta da Lata, Adega do Cantor, Periquita, Quinta do Canhoto, Adega Cooperativa de Pegões, Torre de Palma, entre outras. Em todas estas adegas é possível fazer degustação do vinho subaquático e adquirir o seu tour marinho.
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Você ainda está curioso para entender qual é a diferença entre o vinho envelhecido em terra e o de mar? O debate do tema é relativamente recente. Durante a 2ª Edição do Wine Tourism Experience, especialistas debateram o assunto com muita degustação e comparação de vinhos.
“O próprio estilo do vinho é determinante. Há perfis vínicos que beneficiam de maior suavidade e arredondamento, enquanto outros preservam melhor a frescura e a acidez. Em alguns casos, houve perda de certos aromas primários; noutros, observou-se um ganho de complexidade aromática… entre outros fatores”, analisa Maria João de Almeida, jornalista e presidente da Apeno (Associação Portuguesa de Enoturismo).
2ª Edição do Wine Tourism Experience realizado em Sines
Já para Joaquim Parrinha, os vinhos submersos apresentam reduções do tanino, acidez e açúcar, aumentando a intensidade das percepções dos diversos paladares e até a redução da assimilação do álcool. “As diferenças entre vinhos submersos e vinhos envelhecidos em terra são, de fato, evidentes, e algumas delas já foram comprovadas por meio de análises físico-químicas”, reforça Maria João.
Eu fiz a degustação de muitos vinhos de terra e mar. Mesmo não sendo nenhum enólogo, deu para perceber a grande diferença. Alguns vinhos, principalmente os brancos, a percepção do paladar muda muito e os submersos ficaram mais gostosos e suaves. Já no vinho tinto, a diferença perceptível foi menor. Além da qualidade da produção, a profundidade, pressão, luminosidade, temperatura da água e até o movimento das correntes influenciam o sabor do vinho.
Dificilmente estes vinhos chegarão aos mercados comuns devido ao alto custo. Em média, uma garrafa envelhecida no mar pode chegar a custar 5 vezes mais do que a envelhecida em terra. Então, se você quer provar estes vinhos subaquáticos, procure as adegas ou Ecoalga na região do Alentejo, em Portugal.
Fonte: Melhores Destinos