Covid: por que Cingapura é o melhor país para se viver durante a pandemia

  • Tessa Wong
  • Da BBC News em Cingapura

Singapur

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A vida está quase de volta ao normal em Cingapura, embora algumas restrições permaneçam em vigor.

Enquanto vários países assistem a uma terrível escalada de casos de covid-19, uma pequena ilha asiática se tornou o melhor lugar para enfrentar a pandemia global.

Na semana passada, Cingapura liderou o ranking da agência Bloomberg de resiliência para a covid, à frente da Nova Zelândia, que dominou a lista por meses.

O ranking considera fatores que variam de números de casos a liberdade de movimento das pessoas. O Brasil aparece desde o início de abril como o pior lugar para se estar na pandemia entre os 53 países avaliados.

A Bloomberg citou o programa de vacinação eficiente de Cingapura, em comparação com o lento programa da Nova Zelândia, como a principal razão para a mudança da primeira posição.

Desde o início da pandemia, Cingapura teve um total de 61,4 mil casos de infecção por coronavírus (menos do que a taxa de infecção diária recente no Brasil) e um total de 31 mortes por covid, a última delas registrada no dia 1º de maio.

Então, como é viver no melhor lugar do mundo durante esses tempos incertos? A repóter da BBC Tessa Wong, moradora de Cingapura,

Uma vida quase normal e uma dissonância profunda

Em grande parte, é tudo verdade. A vida em Cingapura pode ser muito boa, embora eu diga isso com algumas ressalvas importantes.

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O uso de máscaras é obrigatório, mesmo ao ar livre, mas não durante a prática de exercícios

Nos últimos meses, além de pequenos surtos que foram rapidamente sufocados, quase não houve infecções comunitárias diárias — embora nesta semana vários novos casos tenham surgido e algumas restrições tenham voltado.

Regras estritas de viagem e segurança de fronteira significam que os casos importados raramente se espalham, com os passageiros que chegam sendo imediatamente isolados.

Além do confinamento de dois meses no início do ano passado, quando a pandemia começou, nunca mais tivemos que nos trancar.

A vida é quase normal: posso ver minha família a qualquer hora ou encontrar amigos para jantar em um restaurante, embora não possamos formar grupos maiores do que oito pessoas.

As máscaras são obrigatórias em todos os lugares, mesmo ao ar livre, embora você possa removê-las enquanto faz exercícios ou se alimenta.

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Os cingapurianos podem encontrar suas famílias em grupos de no máximo 8 pessoas

Muitos de nós voltamos a trabalhar em escritórios com distanciamento social, e você pode assistir a um filme no cinema, assistir a um show ou fazer compras, desde que use máscara e se inscreva em um aplicativo de rastreamento de contatos.

Escolas e creches estão abertas, e nos fins de semana posso levar meus filhos a qualquer lugar, embora muitos locais operem com capacidade reduzida, para garantir o distanciamento social. Então planejar qualquer atividade é muito parecido com a preparação de um exercício militar (nesse caso, eu sou a infeliz soldado e meus filhos são os generais).

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Lojas e mercados foram abertos após um breve lockdown no início do ano passado

Aproximadamente 15% da nossa população foi totalmente vacinada desde o início do ano.

Essa estatística se deve em parte a uma pequena população (somos apenas cerca de 6 milhões de pessoas), mas também à implementação bem feita do programa, grande confiança no governo e muito pouca desconfiança sobre a imunização.

Portanto, estamos seguros e estamos indo bem: o uso obrigatório de máscara, rastreamento agressivo de contatos e longas restrições de viagens e grandes reuniões ajudaram, assim como o fato de sermos uma ilha com fronteiras facilmente controladas, grandes reservas financeiras e um sistema implacavelmente eficiente.

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O distanciamento social se tornou a norma em Cingapura

Mas, ao mesmo tempo, há discordâncias profundas na ideia de que somos o melhor lugar do mundo para se viver agora.

Muitos em Cingapura desfrutam de liberdade de movimento, mas não é o caso das centenas de milhares de trabalhadores migrantes que, em sua maioria, ainda estão confinados em seus locais de trabalho e dormitórios, após os surtos massivos do ano passado devido às condições de vida precárias e insalubres.

Eles têm que pedir permissão aos seus empregadores se quiserem sair de seus quartos e, acima de tudo, socializar em centros recreativos aprovados pelo governo.

O governo argumenta que tudo isso é necessário para proteger o resto do país, pois existe um risco “real e significativo” de outro surto.

Isso não é falso, visto que muitos trabalhadores vivem em lugares mais lotados do que a maioria dos cingapurianos, mesmo após esforços para melhorar suas acomodações.

Mas também destaca o duro fato de que, apesar de todas as suas discussões sobre igualdade, Cingapura continua sendo uma sociedade profundamente segregada.

Isso é “vergonhoso e discriminatório”, diz o ativista pelos direitos dos migrantes Jolovan Wham.

“Como os trabalhadores migrantes não têm poder político, de alguma forma se torna socialmente aceitável que eles suportem o peso de nossos fracassos políticos”, diz ele.

“A Nova Zelândia também está no topo da lista de resiliência da Covid, mas não abusou dos direitos das pessoas. Não se trata apenas do resultado, mas dos meios para se chegar lá.”

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Os trabalhadores imigrantes têm de pedir aos seus empregadores autorização para deixar os seus quartos

A pandemia também continua afetando as famílias desfavorecidas e de baixa renda.

O governo investiu milhões de dólares para sustentar a economia e ajudar famílias necessitadas, e a taxa de desemprego permanece baixa.

Mas os números não contam toda a história.

Alguns trabalhadores viram cortes salariais e muitos dos que perderam seus empregos encontraram outros empregos na economia informal como entregadores de alimentos ou motoristas.

“É precário demais e a sensação de não saber quanto você pode ganhar em um dia pode ser muito estressante”, afirma a assistente social Patricia Wee. “Eles também são facilmente substituíveis. Não há seguridade social.”

Esse estresse pode afetar as famílias de “maneiras perversas”, acrescenta.

Os casos de violência familiar, por exemplo, têm aumentado, mesmo após o confinamento.

Uma gaiola dourada

Mesmo para aqueles de nós que desfrutam dos privilégios da liberdade e uma renda estável, existem algumas desvantagens.

A pouca privacidade que tínhamos antes da pandemia neste estado altamente policiado diminuiu ainda mais.

Aceitamos que, onde quer que vamos, temos que usar um aplicativo ou carregar um arquivo que rastreie nossa localização e as pessoas com quem entramos em contato, embora o governo diga que os dados são mantidos em sigilo.

Com a covid-19, o caminho para uma vigilância maior na sociedade foi acelerado sem muito debate público.

Muitos concordam com o argumento do governo de que isso é necessário em uma crise, mas alguns alertaram sobre o possível uso indevido dessa enorme coleta de dados.

O governo admitiu recentemente que permitiu que a polícia usasse esses dados para outros fins que não o rastreamento de contatos, apesar das garantias de privacidade anteriores. Essa falta de transparência irritou alguns.

Muitos também estão irritados com o que acabou se tornando uma “gaiola de ouro”, graças às rígidas regras de quarentena em Cingapura e em outros lugares, que, por enquanto, excluem viagens. Isso significa que muitos de nós ainda não podemos ver nossos entes queridos pessoalmente em outros países.

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Dezenas de milhares de cingapurianos fizeram cruzeiros que não levam a lugar nenhum

Vivendo em uma cidade-estado populosa sem interior, muitos em Cingapura estão acostumados a viajar para o exterior, mesmo que seja apenas uma excursão de fim de semana para uma ilha indonésia próxima ou cidades vizinhas da fronteira com a Malásia.

Isso não é mais possível, e é por isso que dezenas de milhares viajaram em navios de cruzeiro que não foram a lugar nenhum, enquanto os hotéis são reservados para pessoas que tiram “staycations” (ou “férias em casa”) — mesmo morando em Cingapura, elas se hospedam em hotéis locais.

Entusiastas de motocicletas e carros, acostumados a correr nas pistas e estradas da Malásia, têm percorrido inúmeros circuitos fechados ao redor da ilha.

A notícia de que Cingapura está abrindo uma bolha de viagens em parceria com Hong Kong, depois de uma tentativa fracassada no ano passado, foi recebida com alegria — mas logo isso deu lugar a uma sensação de fracasso, depois que casos de covid foram registrados em ambas as cidades nesta semana.

‘Culpa do sobrevivente’

Mas não se pode reclamar de tédio quando o vírus ainda está devastando algumas partes do mundo.

Alguns de nós, como o escritor Sudhir Thomas Vadaketh, que tem uma família na Índia, onde uma segunda onda devastadora está ocorrendo, estamos experimentando algo como “culpa do sobrevivente” enquanto observamos nossos entes queridos sofrerem à distância.

“É estranho que a situação em alguns países do planeta seja literalmente um inferno, enquanto estamos aqui esperando a bolha das viagens”, diz ele.

“É quase imoral que estejamos indo tão bem e aproveitando nossas vidas isolados, e outros países estejam indo tão mal.”

“Cingapura é uma cidade que se enriqueceu com a globalização. Dada nossa conectividade e a natureza do desenvolvimento econômico, sinto que temos uma responsabilidade moral maior [de cuidar dos outros países]”, acrescenta.

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Cingapura impôs severas restrições a viagens

Muitos em Cingapura diriam que, por enquanto, estamos gratos e aliviados por termos resistido a uma perigosa pandemia global nesta pequena bolha segura.

Mas isso acabará explodindo. O governo de Cingapura enfatizou repetidamente que o país precisa reabrir em prol da sobrevivência econômica e já começou a suspender as restrições a viajantes de alguns lugares como a China continental e a Austrália.

Cingapura um dia se reunirá totalmente ao resto do mundo, e esse será nosso verdadeiro teste de resiliência à covid-19.

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Fonte: BBC

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