Cancún, onde turismo é ‘atividade essencial’, mira brasileiros em retomada

Pelas ruas de Cancún, um dos destinos de praia mais famosos do mundo, os ônibus ainda circulam com mensagem que diz: “Fique em casa, por favor”.

Em um único dia de meados de agosto, porém, cerca de 120 mil turistas de diversos países enchiam os hotéis, aeroporto, bares e praias da região, sob o sol escaldante do verão do hemisfério norte, às margens das águas paradisíacas do Caribe mexicano.

Grande vitrine turística do México, o balneário adotou uma forte estratégia para retomar a atividade, responsável por 80% de sua economia, ainda no início da pandemia da Covid-19, em 2020.

Depois de meses de fechamento de seus estabelecimentos e um prejuízo bilionário, o setor turístico foi declarado atividade essencial pelo governo estadual em junho de 2020, o que permitiu a reabertura gradual e com capacidade reduzida.

A retomada também contou com uma política muito mais benevolente de controle de fronteiras do que em outros países.

Para o turista brasileiro entrar no México, não é preciso apresentar teste de Covid, nem fazer quarentena ou mostrar comprovante de vacinação. Basta passar por controles protocolares de medição de temperatura e preencher um questionário burocrático ao transitar pelo país.

É uma flexibilidade que difere muito das regras de outros destinos favoritos do turista brasileiro, como Argentina e Chile, que desde o início da pandemia estão com amplas restrições.

No México, o turista brasileiro foi um dos alvos prioritários para alavancar a retomada da economia.

A partir de dezembro, um voo da Aeroméxico fará durante a temporada de férias a ligação direta entre Guarulhos (SP) e a cidade mexicana, atendendo a reivindicação do setor turístico local.

Com dificuldade para atrair de volta algumas nacionalidades, os mexicanos comemoraram o aumento do interesse dos brasileiros. Meses atrás, a corrida pelo México era impulsionada pelo chamado “turismo da vacina”, em que viajantes do Brasil, sem conseguir entrar diretamente nos Estados Unidos, faziam antes uma quarentena no país vizinho.

A expectativa é que 2021 supere 2019, ano pré-pandemia, em volume de turistas do Brasil no Caribe mexicano —mais de 180 mil, segundo dados das autoridades regionais. Há na localidade até uma agência que promove passeios voltados ao público do Brasil, e é comum ouvir o português nas ruas.

“Brasileiros têm sido muito importantes. Depois de um ano tão complicado com uma pandemia, com o fechamento de fronteiras, a chegada deles sem dúvida compensará outros que não puderam vir”, diz a prefeita Mara Lezama Espinosa.

Quando questionadas, as autoridades locais sempre afirmam que é seguro promover o turismo seguindo os devidos protocolos sanitários, que incluem procedimentos de higienização de dormitórios e instalações, e citam o selo Safe Travels, do Conselho Mundial de Turismo.

Também afirmam que a quantidade de contágios entre viajantes testados é muito pequena.

De fato, a área turística de Cancún, situada em uma única avenida costeira de cerca de 20 km, é literalmente uma ilha, afastada das partes mais populosas, que chegam a somar quase 1 milhão de habitantes.

Mas toda a região permanece ainda atualmente na chamada fase laranja da pandemia, o segundo grau de risco em uma escala estabelecida pelas autoridades sanitárias que vai até a fase vermelha. Essa escala impõe restrição à reabertura, como limite de capacidade dos estabelecimentos comerciais.

O México, em número absoluto de óbitos, foi um dos países mais afetados na pandemia. O país só agora retoma as aulas presenciais nas escolas, que ainda estavam interrompidas para evitar a disseminação do vírus. O ritmo da vacinação, grande aposta para a volta da normalidade, está em patamares não muito diferentes dos do Brasil.

A promoção de atividades turísticas dentro da conjuntura de pandemia provoca cenas de certa forma inusitadas, como quiosques de testes de Covid dividindo, nas calçadas de Cancún, o espaço com barracas de camelôs e tendas de vendas de passeios.

Os trailers dos laboratórios estão por toda parte do balneário porque os demais países exigem a apresentação de teste negativo do turista que retorna.

Essa regra é aplicada inclusive pelas autoridades brasileiras, que cobram o teste negativo de PCR, o mais complexo deles, para o viajante que volta para casa.

Caso o turista seja diagnosticado com o coronavírus, ele é impedido de embarcar pela companhia aérea e precisa ficar isolado em quarentena, em um nada desprezível risco de perrengue em solo estrangeiro.

Os hotéis do balneário passaram a ofertar, então, uma espécie de seguro-quarentena, no qual, mediante uma taxa de poucos dólares ao dia cobrada no check-in, o turista que receber o diagnóstico de Covid pode estender a sua estada por um preço bem inferior ao cobrado normalmente.

A rede hoteleira local também tem bloqueado alas de suas dependências para hospedar clientes que eventualmente precisem de isolamento devido ao diagnóstico positivo.

Nesse caso, o hóspede não pode sair do dormitório, nem receber o serviço de quarto —apenas a entrega das refeições. Mas os hotéis afirmam que essas situações têm sido pouco frequentes.

Há, ainda, quem ofereça mimos ao turista, como a possibilidade de fazer o exame da Covid no próprio hotel e até o teste incluído na tarifa de hospedagem.

Na área turística de Cancún, o exame PCR custa a partir de US$ 90 (cerca de R$ 470) e precisa ser feito nas 72 horas anteriores ao embarque de volta ao Brasil. Uma boa dica é checar o prazo que o laboratório oferece para a entrega do resultado.

É também altamente recomendável comprar um seguro-viagem antes da partida. Sem ele, caso necessite de atendimento médico, o viajante pode ter como única e incerta opção o sistema público local.

Também é aconselhado verificar as condições a serem contratadas no seguro. Uma hospitalização na rede privada mexicana, se prolongada, pode exceder os valores da cobertura.

Pela localidade caribenha, o clima é um pouco de “velho normal”, com seus shoppings de luxo, suas praias praticamente privativas para os grandes hotéis e ainda resorts no melhor estilo bon vivant, que instalam na areia camas com colchão de couro e dosséis.

Mas ainda há atividades funcionando parcialmente ou mesmo suspensas.

Alguns serviços oferecidos por spas, por exemplo, e petiscarias na beira das piscinas, não estão disponíveis por medidas de segurança. Os navios de cruzeiros também ainda não voltaram como antes.

Outro efeito da Covid que ainda persiste no balneário é em um de seus principais atrativos, o da agitada vida noturna. As baladas, divulgadas pela cidade como “melhores do que em Las Vegas”, não podem abrir na fase laranja. Como alternativa, os estabelecimentos estão trabalhando como restaurantes.

De qualquer forma, no miolo da zona turística, a movimentação de turistas à noite é intensa, com bares com dançarinas tocando música alta para chamar a clientela.

Tudo precisa fechar até a meia-noite.

Os turistas americanos, que são vasta maioria do público viajante em Cancún graças às dezenas de voos diretos vindos dos Estados Unidos, são criticados entre os moradores pela negligência no uso de máscaras. Com o avanço da vacinação, a obrigatoriedade da proteção nos EUA foi flexibilizada.

Em Cancún, o uso continua obrigatório —no hotel em que a reportagem se hospedou, foi preciso até preencher um termo se comprometendo a utilizar o acessório em suas dependências. Nas praias, não há essa imposição.

“Muita gente quer ficar nos lugares que estão cheios, não respeitam as medidas sanitárias. Tem uma ideia de que, como tem a vacinação, não vai acontecer nada”, diz o morador Said García, 31, funcionário de um laboratório.

O jornalista viajou a convite da Aeroméxico, do Conselho de Promoção Turística de Quintana Roo e do Grupo Posadas

Fonte: Folha de S.Paulo

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