L de linguiça, de lasanha, de lula… à dorê

Lá no sertão potiguar, quatro operários disseram X e posaram fazendo a letra L com a mão – para desgosto de J, o presidente que também saiu na foto.

Logo a imagem viralizou: nas redes sociais, muita gente interpretou o gesto como apoio ao candidato favorito nas eleições de 2022. Louvor ao céu acima, argumentaram os lacaios do poder. Lobby armamentista, pistolinha, sugeriram outros.

Lamento discordar. Levando-se em conta a miséria e a fome que assolam o país, devo presumir que os trabalhadores estavam implorando por comida.

L de lanche, de larica, da lombriga que mora no estômago. L de linguiça frita, grelhada ou acebolada. L de lula, por que não? Lula à dorê, recheada, chapeada ou em vinagrete.

L de lagosta, afinal o Oceano Atlântico está a duas horas de carro dali. Litoral onde se pesca muita lagosta. Limão, manteiga e alho na danada… lindo! Linguado, lagostim, lambreta, lambari… opa, esse é peixe de rio. Lago, talvez.

Léguas e léguas distante do semiárido nordestino, l de liberdade para sonhar com qualquer comida de qualquer lugar.

Lámen do Japão. Locro da Argentina. Lulo e lúcuma, frutinhas dos A15ndes. Leberkäse, lutefisk, estranhas iguarias nórdicas. Lesma, que é chique no último lá na França: “l’escargot”.

L de lasanha, delícia italiana que já tem passaporte brasileiro. L de lombinho, que se diz canadense, mas é figurinha fácil na padaria da esquina.

Lambem os beiços os operários, ao lembrar da fumegante língua ao molho madeira. Lagarto desfiado, lentamente cozido até virar carne louca. Lentilha, para comer com a linguiça. Lenha, para acender o fogão caipira. Legumes, para uma alimentação equilibrada.

Leves sobremesas, frutas: lichia, lima-da-pérsia, licuri. Laranja? Liga pro Queiroz. Liga pro senador Flávio.

Longa, a lista também tem leite. Leite integral, leite desnatado, leite de vaca, leite de cabra, leite sem lactose e, para deleite do Jair, leite condensado.

Lógico que o L pode ter outros significados, longe do léxico próprio da gastronomia. Luto pelo meio milhão de mortes na pandemia. Lunático homicida. Lata de lixo da história.

L para enxotar o J de jumento, de jagunço, de jeca, de judas, de jacobeu.

L para esconjurar o M de mitômano, de messias falso, de matança, de monstro genocida, de miliciano.

L para exorcizar o B de boçal, de beligerante, de bananinha, de biltre, de todos os palavrões que não podem ser impressos no jornal.

L de liberdade, em contraponto à ameaça autoritária que bafeja nos nossos cangotes. L de luta.

Late o cão raivoso que habita o Palácio da Alvorada. Luta quem ainda respira.

Levanta o dedo para o alto, em forma de L, quem nunca aceitou a aberração JMB.

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Fonte: Folha de S.Paulo

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