Sem acesso a tratamento, imigrantes ilegais gastam US$ 1,4 mil em “kit covid” ineficaz nos EUA

Em uma tarde de terça-feira em abril, entre mesas de vegetais, roupas e carregadores de telefone no maior mercado de pulgas de Fresno, na Califórnia, estavam medicamentos sob prescrição, vendidos como tratamentos contra covid-19.  Feirantes vendiam injeções do anti-inflamatório dexametasona por US$25, vários tipos de antibióticos e o medicamento antiparasitário ivermectina. Cloroquina e hidroxicloroquina – medicamentos contra malária promovidos pelo ex-presidente Donald Trump ano passado, com uso ainda estimulado pelo presidente Jair Bolsonaro – também fazem aparições regulares no mercado, assim como suplementos falsos de ervas. 

Agências de saúde e de proteção ao consumidor repetidamente advertiram que vários desses tratamentos, assim como infusões vitamínicas e injeções caras de “terapias de peptídeos” vendidas em clínicas de bem-estar por mais de US$ 1.000 não são apoiadas em evidências científicas confiáveis.  Mas tais remédios não comprovados, muitas vezes promovidos por médicos e empresas nas redes sociais, têm atraído muitas pessoas em comunidades imigrantes de baixa renda em lugares do país onde as taxas de covid-19 têm sido altas mas o acesso a assistência de saúde é baixo. Alguns se voltam para medicamentos não regulamentados porque a medicina convencional é muito cara ou inacessível por causa de barreiras culturais ou linguísticas.

COVID-19's Impact on Undocumented Immigrants in Western Massachusetts | Global Health NOW

“É decepcionante mas não surpreendente que pessoas vivendo abaixo da linha da pobreza têm gastado grandes somas de dinheiro em tratamentos não comprovados contra covid-19″, disse Rais Vohra, chefe provisório do departamento de saúde do Condado de Fresno. “As pessoas estão desesperadas e são bombardeadas com desinformação e talvez não tenham as habilidades, tempo ou contexto para interpretar evidência médica.” Durante a pandemia, muitos imigrantes excluídos da assistência médica convencional se voltaram para mercados do tipo em busca de tratamentos para covid-19. Aproximadamente 20% da população hispânica nos Estados Unidos não tem seguro de saúde e a proporção é muito maior entre imigrantes não documentados.  Além disso, alguns imigrantes não confiam em médicos que não falam sua língua ou que os tratam secamente – e essas preocupações têm sido amplificadas pela severa retórica política dirigida a mexicanos e centro-americanos.

Medo de deportação

“Minha comunidade teme que o governo pode estar tentando se livrar de nós”, disse Oralia Maceda Méndez, uma ativista em um grupo de comunidade baseado em Fresno para a população indígena de Oaxaca, México. Ela ouviu muitas histórias de imigrantes em sua comunidade que se automedicam contra covid-19 com penicilina, outros antibióticos ou um mix de vitaminas e terapias com ervas comprados em lojas ou de viajantes vendendo medicamentos comprados no México. “Não estou surpresa que estão se aproveitando das pessoas”, ela disse. “Nós não temos a assistência de que precisamos.”

As COVID-19 relief vote nears, undocumented immigrants struggle with no aid - ABC News

Alguns trabalhadores rurais receberam tratamentos não comprovados em clínicas especializadas. Uma mulher em Fresno recentemente descreveu como seu marido, um trabalhador rural, ficou tão doente com covid-19 que ele não conseguia respirar ou caminhar, mas ele se recusava a ir até o hospital porque ele havia escutado boatos de que imigrantes não documentados haviam dado entrada e nunca saído. Ela o levou até uma clínica de bem-estar, onde um médico o deu tratamentos de peptídeos injetáveis, lembrou a mulher, que pediu anonimato por causa de seu status de imigração.

US$ 1,4 mil por ‘kit covid’

Ela não estava preparada, ela disse, para a conta de US$1.400, que incluía o custo de seringas e frascos rotulados como thymosina-alpha1, BPC-157 e LL-37. Enquanto os tirava do armário na cozinha de sua casa móvel, ela disse que não sabia exatamente o que eram, e ela ainda sente o preço salgado.  “Eu estava em choque, mas estava tentando agir como se estivesse ok porque eu tinha que ser forte pelo meu marido e meus filhos”, ela disse. Ele ficou mais doente apesar das injeções, mas a família não tinha mais dinheiro para assistência. Mais de um mês se passou até que ele ficasse bem o suficiente para voltar aos campos.

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Sandra Celedon, presidente de uma aliança de organizações de base chamada Fresno Building Health Communities, disse que ela e seus colegas ouviram diversos trabalhadores rurais e outros imigrantes latinos de baixa renda que gastaram suas economias em infusões vitamínicas e terapias de peptídeos contra covid. “Essas pessoas são as mais pobres das mais pobres, e ainda assim médicos estão pedindo dinheiro vivo para seus tratamentos não comprovados”, ela disse.  Alguns medicamentos não regulamentados podem ser perigosos. E mesmo que eles não sejam um risco à saúde por si só, eles podem fazer com que as pessoas adiem a procura de ajuda médica, o que pode ser fatal. Tratamento atrasado é uma razão pela qual pessoas das comunidades negra e hispânica morreram de covid em uma taxa duas vezes maior que pessoas brancas nos Estados Unidos.

Terapias alternativas também podem limitar as opções de tratamento de um paciente porque médicos se preocupam com interações medicamentosas tóxicas, disse a doutora Kathleen Page, uma especialista em doenças infecciosas na Escola de Medicina da Universidade Johns Hopkins em Baltimore.  Imigrantes não documentados do México e da América Central que foram para a sala de emergência em seu hospital muitas vezes mencionam remédios caseiros, vitaminas ou antibióticos que eles injetaram ou ingeriram antes de procurar assistência. “Eu não fico chateada com os pacientes quando eles me contam o que tomaram”, Kathleen disse. “Eu fico chateada com o sistema que faz com que seja mais fácil para eles pedir ajuda de lugares não tradicionais do que da assistência de saúde regular”.

‘Curandeirismo’ em redes sociais

Impedidos ou relutantes em falar com provedores médicos convencionais, algumas pessoas se voltam para o Facebook, YouTube ou WhatsApp em busca de conselhos. Em “Covid-19 Recipes and Home Remedies”, por exemplo, uma página do Facebook em espanhol com aproximadamente 10 mil membros, pessoas dos Estados Unidos, México e América do Sul trocam dicas de misturas de ervas, zinco, vitamina B12, ivermectina e dióxido de cloro – que já foi associado a relatos de falha respiratória e hepática.

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Ignacio Guzman, especializado em “medicina anti-idade, regenerativa e integrativa” em uma clínica em uma área afluente do norte de Fresno, usa as redes sociais para promover terapia de peptídeos para uma grande variedade de doenças. No Instagram, ele promoveu a terapia em uma foto dele mesmo tomando vacina contra covid-19, e escreveu que “integrar peptídeos com imunizações pode dobrar sua eficácia!” (Nenhum teste clínico de vacinas contra covid-19 apoiam essa alegação e as doses são altamente eficazes por si próprias.) Outra postagem no Instagram, de março de 2020, inclui uma foto mostrando uma linha intravenosa no braço do médico acima de uma legenda em que ele indica que ele está sendo infundido com vitamina C. “Essa IV junto com terapia de peptídeos irá limitar minhas chances de adquirir infecções como Influenza A e o Corona Vírus!” ele escreveu.

A FDA aponta que a terapia de peptídeos e thymosina-alpha 1 não é autorizada nos Estados Unidos para tratar covid-19, nem é aprovada para nenhuma outra condição. Ao longo do último ano, a agência e a Federal Trade Commission (FTC) reprimiram centenas de empresas que estavam fazendo alegações sem evidências sobre supostos tratamentos contra covid-19, incluindo thymosina-alpha 1, BPC-157 e infusões de vitamina C. A FTC alerta que  qualquer pessoa que fizer “alegações enganosas relacionadas a tratamento, cura ou prevenção de covid-19” pode estar sujeito a multas de até US$43.792 por cada violação.  Nenhuma dessas agências enviou uma carta de aviso pública a Guzman. Ele e seu advogado não responderam a vários pedidos de comentário.  Juan G. Bautista, que trabalha com Guzman na clínica, recusou-se a comentar sobre seu colega. “Eu não quero falar contra outro médico se a intenção dele foi cuidar de um paciente”, ele disse. / NYT

Fonte: Brazilian Press

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