1 ano da morte de George Floyd: ‘Não há nada para se comemorar’

  • Sandrine Lungumbu
  • BBC World Service

Duas mulheres negras se abraçando na rua após o veredicto de Derek Chauvin ser anunciado

Crédito, Getty Images

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Derek Chauvin foi considerado culpado nas três acusações após julgamento de três semanas

O famoso vídeo mostrando os momentos finais vida de George Floyd, no dia 25 de maio de 2020, provocou um acerto global de contas contra o racismo e a brutalidade policial contra os negros.

Para alguns, a rara condenação nos Estados Unidos do policial branco Derek Chauvin pelo assassinato de um negro prova que a justiça foi feita.

Mas, para muitas pessoas, não é tão simples.

Toni, um cinegrafista de 28 anos, ouviu o veredicto de seu quarto de hotel após um longo dia de filmagens para o trabalho.

“Não consigo descrever o sentimento, mas certamente não foi uma celebração”, diz ele. “É irônico que tenha parecido mais com um grande suspiro de alívio, uma respiração profunda. Isso me deu mais fé no sistema de justiça? Na verdade, não.”

Em seus momentos finais, George Floyd gritou mais de 20 vezes, alertando que não conseguia respirar ao ser contido por policiais em uma rua de Minneapolis.

Em abril, um júri considerou Chauvin culpado condenado por três crimes previstos na Justiça americana e sem paralelos exatos com o ordenamento brasileiro.

Em uma tradução aproximada, seriam eles: homicídio doloso de segundo grau (a mais grave de todas, com pena de até 40 anos de prisão, demonstrando uma relação de causa e efeito entre conduta do acusado e morte); homicídio doloso de terceiro grau (demonstração de negligência com a vida humana, com pena máxima de 25 anos); e homícidio culposo de segundo grau (quando alguém submete outro a um “risco irracional”, colocando-o em risco de morte ou ferimentos graves, passível a pena de até 10 anos de prisão).

O ex-policial deve receber a pena no dia 16 de junho.

Em 2020, conversei com três jovens negros de diferentes partes do mundo sobre o assassinato de George Floyd.

Um ano depois, voltei a falar com Toni Adepegba, Laëtitia Kandolo e Nia Dumas para descobrir o que a condenação significa para eles. E para ver se, como eu, eles também tiveram dificuldades para encontrar palavras que expressem seus sentimentos.

‘Nada para comemorar’

Crédito, TWITTER/RUTH RICHARDSON

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George Floyd disse aos policiais que o detiveram mais de 20 vezes que ele não conseguia respirar

Apesar de uma breve comemoração, não demorou muito para que eu sentisse uma profunda tristeza e uma sensação de emoção não resolvida. E eu não estava sozinha.

“Eu estava em casa e vi (o anúncio) no meu Instagram e fui no Twitter para saber mais”, lembra Laëtitia.

“Não acho que feliz seja a palavra correta porque você fica feliz nos primeiros cinco minutos e então percebe que isso não deveria ter acontecido, em primeiro lugar.”

“Não há nada para comemorar porque você sabe que é apenas uma vez em toda a história [que acontece a condenação] e esses assassinatos acontecem todos os dias e continuarão acontecendo.”

Toni também avaliou a notícia como difícil.

“Você sente esperança. Quando você ouve que ele foi condenado por todas as acusações, você quer pensar ou acreditar que as coisas vão mudar a partir de agora”, diz ele.

“No final das contas, acho que até que as questões maiores sejam resolvidas, essas coisas continuarão acontecendo, assim como com Ma’Khia Bryant.”

Ma’Khia Bryant, de 16 anos, foi morta a tiros por um policial branco do Estado americano de Ohio, nos EUA, que estava atendendo a uma ocorrência de tentativa de esfaqueamento.

O policial Nicholas Reardon atirou na adolescente negra cerca de 30 minutos antes de ser proferido o veredicto no julgamento de Chauvin.

Crédito, TONI ADEPEGBA

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O cinegrafista do Reino Unido, Toni Adepegba, iniciou terapia para lidar com um ano desafiador

O vídeo de George Floyd foi um ponto de virada para a designer Laëtitia, que vive na República Democrática do Congo. Ela inicialmente acreditava que compartilhar vídeos poderia ser a única maneira de responsabilizar os racistas. Agora, ela acha que o custo disso pode ser muito alto.

“Toda vez que há um incidente semelhante, me dá flashbacks do vídeo do Floyd”, diz ela.

“Começo a pensar como essa pessoa foi tratada em seus momentos finais. Ela chorou pela mãe, você pode ver o desespero em seus olhos, você pode vê-los perceber que é o fim? Isso fica com você.”

Assim como o próprio vídeo, as conversas sobre raça foram inevitáveis ​​no último ano para muitas pessoas.

Para Toni, a pandemia mudou essas discussões de uma forma que ele não tinha visto antes e reacendeu o ímpeto em torno do movimento Black Lives Matter, ou Vidas Negras Importam.

“Estávamos em um período em que todos estavam trancados em casa, então muitas pessoas tiveram mais tempo para realmente sentar e processar algumas verdades desagradáveis”, diz ele.

O peso dessas conversas difíceis continua impactando a saúde mental de muitos negros. Tenho me sentido exausto e oprimido.

Durante o julgamento, uma nova filmagem da câmera corporal policial foi divulgada mostrando os momentos que antecederam a prisão e morte de George Floyd.

“Não sinto que preciso rever esse trauma, então não assisti ao vídeo completo dos momentos finais dele mais uma vez”, diz Toni.

“Estou preocupado em deixar esse peso entrar em meu organismo porque sei que isso vai me prejudicar emocionalmente, mentalmente, espiritualmente e fisicamente. Tenho que fazer o que posso para manter minha alma em paz.”

Toni decidiu começar a fazer terapia para encontrar uma maneira de lidar com um ano tão desafiador.

Inicialmente, ele hesitou em procurar ajuda devido à falta de diversidade na área de saúde mental no Reino Unido.

“A realidade é que nenhuma dessas pessoas se parecia comigo. Todas eram brancas e eu simplesmente não tinha ninguém com quem pudesse me relacionar”, diz ele.

“Acho que minha intenção ao buscar ajuda profissional de novo era mais sobre me equipar com ferramentas para ajudar outras pessoas. Não só por causa do Black Lives Matter, mas também porque estamos passando por um momento em que há tantas coisas que afetaram e continuam atingindo nossa comunidade.”

‘Eu não tenho o privilégio de existir’

Crédito, NIA DUMAS

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‘Isso me fez amadurecer rapidamente porque você percebe que se você é uma pessoa negra na América, é isso que acontece’

Até o último momento, Nia pensou que Chauvin seria considerado inocente.

A estudante americana de 20 anos passou sua vida vendo hashtags de campanhas por justiça que terminaram sem condenação.

Muitas das vítimas são conhecidas pelas pessoas nos EUA e em todo o mundo como exemplos de vítimas de brutalidade policial e racismo, como Breonna Taylor, Eric Garner, Sandra Bland, Michael Brown, para citar apenas alguns.

“Lembro-me de assistir ao caso Trayvon Martin e depois ir para a escola e aprender sobre os três poderes do governo e como ele funciona”, disse Nia.

“Aos 11 anos, eu pensava: é claro que ele será condenado porque acabamos de saber na semana passada que se você violar a lei será punido.”

Trayvon Martin era um negro desarmado de 17 anos que foi morto a tiros por um vigia de bairro na Flórida, que foi absolvido pelo assassinato em 2012 sob a alegação de legítima defesa.

E a lista de nomes não parava de crescer.

“Então, alguns anos depois de Trayvon, foi Michael Brown, e, em seguida, Tamir Rice, que é da minha cidade natal.”

Para Nia, que cresceu no centro da cidade de Cleveland, suas melhores memórias de infância são algumas visitas ao cinema e dias intermináveis ​​na pista de skate com os amigos.

“A única coisa que sinto falta de ser mais jovem é que eu podia ir à escola, à loja ou a qualquer lugar sem que fizessem comentários sobre mim relacionados à minha negritude”, diz ela.

“Eu realmente não tenho mais o privilégio de apenas existir. Isso me fez amadurecer rapidamente porque você percebe que, se você é uma pessoa negra na América, é isso que acontece.”

George Floyd não é um mártir

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Nia Dumas: ‘Não queremos que os policiais sejam condenados depois de nos matar – não queremos que eles nos matem’

Algumas pessoas dizem que George Floyd foi usado por políticos como um mártir.

“Na verdade, ele é uma vítima de assassinato”, diz Nia. “Eles acham que os negros aceitarão melhor a situação se ele morrer por uma causa supostamente maior.”

“Meu problema é como o governo está enquadrando isso. Não é que queremos que os policiais sejam condenados depois de nos matar. A realidade é que não queremos que eles nos matem de forma alguma”.

Cerca de mil pessoas por ano são mortas por policiais nos EUA, de acordo com um projeto independente que monitora a violência policial. A maioria baleada.

Apesar de os afro-americanos representarem apenas cerca de 13% da população, a pesquisa mostra que a polícia atira mais fatalmente contra negros desarmados. A taxa é mais de três vezes a de brancos.

Nia acredita que existe um racismo sistêmico no policiamento nos EUA e, até que isso seja resolvido, nada de significativo surgirá a partir da condenação de Chauvin.

“Acho que o motivo pelo qual eles se concentram apenas nas condenações é porque não querem fazer mudanças estruturais. Então isso é como uma vitória alternativa para nos pacificar”, diz ela.

‘Um tipo diferente de liberdade’

Crédito, FURIE PHOTOGRAPHE

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‘Eu sinto que talvez a pandemia me fez voltar para casa porque eu realmente não me vejo morando em Paris’, diz Laëtitia

Durante o auge dos protestos globais do Black Lives Matter, em 2020, Laëtitia morava em Paris quando estátuas foram derrubadas e centenas de milhares tomaram as ruas em uma posição conjunta contra o racismo.

Agora, a jovem de 29 anos mora em Kinshasa, na República Democrática do Congo, depois de se mudar em setembro.

“Estou morando em um lugar onde posso ser totalmente eu mesma”, diz ela.

O apartamento dela tem vista para uma estrada empoeirada onde ela pode ouvir as crianças do bairro brincando e ouvir a trilha sonora de uma rumba preenchendo o ar úmido.

“Elas têm um tipo diferente de liberdade e estão em um nível que eu nunca tive. Eu estou falando sobre o espaço mental e físico para serem elas mesmos. Elas não são crianças negras aqui. São simplesmente crianças”, diz ela.

“Eu realmente sinto que talvez a pandemia apenas me fez voltar para casa porque eu realmente não me vejo morando em Paris, o que é uma loucura dizer.”

“Não estou dizendo que todo mundo deve ou pode se mudar para a África porque não é fácil. Mas acho que, uma vez que você vivenciou um país onde se sentiu totalmente aceita de alguma forma, você não pode simplesmente voltar.”

“Nós nascemos ou crescemos nesses lugares onde estabelecem em nossas cabeças que as coisas são o que são. O que estou dizendo é que não deveria parecer Ok.”

‘Preto ou branco’

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Toni Adepegba: ‘Justiça é (George Floyd) não morrer, independentemente do que ele possa ter feito’

Muitos negros, assim como Nia, Laëtitia e Toni, sabem que, independentemente de onde estejam no mundo, ser negro significa que você não tem as mesmas margens de erro que os brancos.

Algumas pessoas acreditam que é essa experiência da realidade que está no cerne da compreensão da motivação da morte de George Floyd.

“Quando você é o único negro, está sempre se observando e vê como as outras pessoas olham para você como se você estivesse de alguma forma perdido ou fora de seu ambiente”, diz Laëtitia.

“Mas também é difícil viver com essa pressão, então você está sempre pensando e trabalhando duas vezes mais. Enquanto os outros trabalham para fazer as coisas bem, você está se esforçando para alcançar a perfeição.”

“Justiça é (George Floyd) não passar pela morte que passou, independentemente do que ele supostamente teria feito”, diz Toni.

Um funcionário de uma loja denunciou Floyd à polícia, acreditando que a nota de 20 dólares que ele usou para comprar um maço de cigarros era falsificada. Meia hora depois, George Floyd estava morto.

O julgamento e a condenação de Derek Chauvin soam como uma exceção, ao invés de ser o curso natural de um sistema de justiça que serve a todos com imparcialidade.

Para Nia, Laëtitia e Toni, é simples. Se o sistema fosse realmente igual, George Floyd ainda estaria vivo.

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Fonte: BBC

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